Prostitutas dizem a Lena Dunham para parar de botar banca sobre o trabalho sexual

Celebridades como Lena Dunham e Kate Winslet protestaram contra a proposta da Anistia Internacional de descriminalizar a prostituição. Prostitutas que apoiam a Anistia desejam que as celebridades fiquem fora disso.

Por Emily Shire, para The Daily Beast.

Muitas causas célebres gostariam de receber o apoio de Lena Dunham.

A estrela e criadora de Girls surgiu como uma voz de liderança para a geração do milênio, feministas, democratas e militantes pró-escolha.

Mas enquanto o presidente Obama aceitou de bom grado o selo de aprovação de Dunham quando concorreu à reeleição em 2012, há pelo menos um grupo que gostaria que Dunham recuasse: as trabalhadoras sexuais.

Dunham e uma série de outras celebridades – incluindo a coestrela de Girls Allison Williams e as vencedoras do Oscar Kate Winslet, Anne Hathaway e Meryl Streep – emprestaram sua fama para uma campanha de oposição à proposta da Anistia Internacional sobre a proteção dos direitos das trabalhadoras sexuais.

Essa proposta inclui “descriminalizar todos os aspectos do trabalho sexual”, disse ao Daily Beast a diretora de Mídia da Anistia Internacional, Susanna Flood. Ela ressaltou em um e-mail que “nenhuma política foi adotada pela Anistia Internacional e não é possível especular sobre o resultado final da votação.”

Mas se essas celebridades – às quais se uniram ativistas bem conhecidas, como Gloria Steinem – conseguirem fazer as coisas à sua maneira, o trabalho sexual não será descriminalizado.

Elas afirmam em sua carta que, se a Anistia Internacional apoiar a descriminalização na reunião de seu Conselho Internacional no próximo mês, em Dublin, ela apoiará um “sistema de apartheid de gênero” em que “uma categoria de mulheres pode obter proteção contra a violência sexual e o assédio sexual”, mas aquelas que são forçadas contra sua vontade para trabalhar no comércio do sexo são “separadas para o consumo pelos homens”.

Embora essa declaração tenha seu apelo para pessoas de fora, a resposta das trabalhadoras sexuais para Hollywood é: “Não, obrigada. Você entendeu tudo errado.”

“Se Kate Winslet e Lena Dunham estivessem negociando sexo em um ambiente criminalizado, nesse caso elas deveriam falar, mas o papel de um defensor e aliado é dar um passo atrás e deixar aquelas pessoas falarem”, disse ao Daily Beast Jane (esse não é seu nome real), uma trabalhadora sexual de 30 anos que vem atuando em Nova York por oito anos. Ela apoia plenamente a proposta da Amnistia Internacional. “No segundo em que Kate Winslet começar a negociar sexo por dinheiro, ela poderá se expressar plenamente sobre isso”, acrescentou Jane.

No entanto, a Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres (CATW), um dos principais apoiadores da campanha contra a descriminalização, ofereceu apenas elogios às vozes das celebridades.

“São atrizes, mas todas são ativistas de direitos humanos que tiveram a generosidade de compartilhar os holofotes sobre esta questão. É realmente importante, e nós somos verdadeiramente gratas por elas subscreverem tudo isso com sua celebridade”,  disse ao Daily Beast Taina Bien-Aimé, diretora-executiva da CATW.

“A Anistia Internacional não está escutando. Eu acho que Hollywood é o próximo passo. Se ela [a Anistia Internacional] não a está ouvindo, quem ela está ouvindo? ”

Essa dependência de celebridades como vozes chamativas para as autoridades é exatamente o que frustra muitas profissionais do sexo quando se trata de debates sobre a sua indústria.

“No final do dia, esta é uma proposta que tem impacto sobre a minha vida, e não sobre a vida de Lena Dunham”, diz Jane. “O fato de que celebridades que não têm nenhuma participação nisso e não serão afetadas por isso estão tendo mais voz é frustrante e, francamente, desumanizante.”

“Colocar tanta influência em uma situação que não tem impacto sobre sua vida é absolutamente prejudicial, porque é como dizer que as pessoas que são afetadas não merecem falar e sua voz é mais importante do que a delas.”

Jane, que apoia a proposta de Anistia, fala como alguém que tem sido vítima várias vezes durante sua carreira, mas nunca se sentiu segura para ir à polícia.

“Eu definitivamente passei por situações em que me considerei uma vítima de agressão sexual e senti que não havia opção, sabendo que a pessoa que me feriu tomou essa decisão sabendo que eu não podia ir à polícia”, diz ela.

Ela também se sente desempoderada com seus clientes, porque é claro que ela não tem segurança para procurar apoio nos agentes da lei.

“Mesmo conversas básicas sobre o uso de preservativos são criminalizadas. Entrar em uma situação na qual eu estarei a sós com uma pessoa por uma hora, apenas esperando que nós concordaremos sobre o uso do preservativo, é aterrorizante “, ela diz. “Pensar se esse será o último programa que farei na vida é algo que nunca está muito longe da minha mente.”

A vulnerabilidade das trabalhadores sexuais perante clientes e cafetões é exatamente o motivo pelo qual a CATW e outros argumentam contra a descriminalização. Por que alguém desejaria sancionar uma indústria onde as pessoas são muitas vezes exploradas e abusadas?

Mas o medo da prisão não deterá esses ataques.

“Quando isso [o abuso] acontece, fica na sua mente por todos os programas [com clientes] que você faz, mas você ainda tem que pagar suas contas”, diz Jane.

Que o trabalho sexual continuará a existir, seja legalmente sancionado ou não, é um ponto que passa despercebido para aqueles que lutam contra a descriminalização, explica Kristen DiAngelo, diretora executiva do Sex Workers Outreach Project (SWOP) – Sacramento.

“Não importa o que você diz que acontecerá. Se alguém precisa de algo para comer, ou para alimentar seus filhos, você não pode detê-los. Se a única coisa que têm para trabalhar é o seu corpo, vão procurar o dinheiro para não passar fome. Assim é que as coisas funcionam”, diz DiAngelo, que vem exercendo o trabalho sexual por quatro décadas.

Uma questão gritante que Dunham, Winslet, e companhia também parecem não entender sobre a vida de uma trabalhadora sexual é que a partir do momento em que ele ou ela é presa, é dramaticamente difícil, se não impossível, encontrar um trabalho fora da indústria do sexo.

De fato, dizem ativistas, criminalizar o trabalho sexual perpetua um ciclo que aprisiona financeiramente aquelas que estão tentando deixá-lo.

“Assim que você é presa, passa a ter uma Scarlett Letter.1Letra Escarlate: um símbolo visível de vergonha, uma marca, um sinal. Uma vez que você passa a ser uma trabalhadora sexual conhecida e tem uma ou duas detenções, você não vai mais a lugar algum. Isso te aprisiona a este estilo de vida”, diz DiAngelo.

“A ideia de tentar explicar isso a um empregador é muito humilhante. É tudo sobre seu registro (como trabalhadora sexual). Você pode imaginar pedir a alguém um trabalho e é assim que te enxergam?”

DiAngelo voltou para o trabalho sexual, apesar de ter conquistado diploma universitário e trabalhado no sistema financeiro como corretora,  por que era economicamente a melhor opção depois de uma doença autoimune forçá-la a perder o trabalho e deixá-la debilitada.

Ela continuou a praticar o trabalho sexual, apesar dos múltiplos ataques sexuais e tentativas de assassinato.

A falta de proteção policial é como esfregar sal nas feridas de DiAngelo.

“Fui vítima de um ataque muito brutal. Enquanto jazia na unidade para vítimas de estupro da UC Davis Medical Center, disseram-me que se fizesse acusações formais, eu iria para a cadeia”, lembra DiAngelo. “Eu estava sangrando por todos os buracos do meu corpo e sendo mantida em cativeiro durante toda a noite, mas era intimidada pela polícia com a ameaça de contravenção.”

O ataque foi a gota d’água para DiAngelo, e ela insistiu em formalizar a acusação. Ela diz que seu agressor, ao fim, pegou apenas 45 dias por agressão com arma mortal e continuou ferindo outras mulheres.

Entretanto, “eu acordo toda a noite com o gosto de sangue em minha boca’, ela diz.

Na sua perspectiva, aqueles que se opõe à descriminalização são bem intencionados, mas equivocados.

“Todos pensam que estão nos ajudando. Eles nunca param para falar conosco”, DiAngelo diz, sufocando as lágrimas.”Eles só querem fazer isso desaparecer.”

Enquanto ela acredita que a oposição das celebridades ao documento da Anistia Internacional “provavelmente tem boas intenções”,  they’re far too quick to pat themselves on the back.

“Elas vão para casa à noite pensando terem feito algo bom e nós ficamos limpando o sangue derramado. Somos as únicas a tentar nos manter vivas.”

(1) Scarlet Letter: um símbolo visível de vergonha, uma marca, um sinal.


A imagem é uma ilustração de Emil Lendof para o Daily Beast. Tradução por Monique Prada, trabalhadora sexual, e Henrique Marques-Samyn, pró-feminista e professor da UERJ.

One thought on “Prostitutas dizem a Lena Dunham para parar de botar banca sobre o trabalho sexual

  • 2 de agosto de 2015 em 18:05
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    Essas Celebridades estão sem trabalho é? Só pode. Não sabem de Nada a nosso respeito e o quanto nosso trabalho poderia ser 100% para todas e todos se deixassem que nós exercêssemos nossos direitos de trabalhar no que queremos. Vcs são tão exploradas no vosso trabalho de atrizes e nem se dão conta. Poderia se unir a nós para erradicar a exploração que toda mulher sofre no trabalho, seja ela domestica, atriz, enfermeira ou Puta. Só o fato de sermos mulher já nos exploram. Chega de se meter onde ninguém chamou. Chega de atrapalhar! A legalização do aborto já é uma questão de Saúde, correto? São milhares de mulheres mortas todos os dias pela pratica ilegal. A legalização do nosso trabalho é questão de Vida e de direito. São milhares de mulheres morrendo todos os dias por viverem na clandestinidade, pagando impostos sem direito a Segurança, a Saúde integral , a Políticas específicas. Por que se não sabem, nós também pagamos impostos. E não pagamos mais porque vcs meso nos tiram esse direito.O Maior objetivo da Anistia Internacional é relacionado aos direitos humanos de todos os segmentos da Sociedade, principalmente daqueles onde a violência é mais visível. Tem tanta coisa para essas atrizes lutarem e elas resolveram tirar o nosso trabalho.Se não gostam de sexo, eu gosto. E de $$$ também! Ai que abuso!!!

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