Carta aberta às feministas australianas preocupadas com a exploração das trabalhadoras sexuais

Da autora (*) do blog Porque eu sou uma prostituta

Caras feministas,

Estou escrevendo para discutir a questão do trabalho sexual e do feminismo.

Eu sou uma profissional do sexo na Austrália do Sul, falo apenas por mim mesma, e exorto-vos a ler e ouvir as palavras de outras trabalhadoras sexuais sobre as questões que eu escrevo aqui.

Se em algum momento vocês sentirem um tom amargo ou hostil em qualquer coisa que eu escrever, por favor, tentem entender que é devido aos anos de discriminação evidente, sistêmica, estrutural, permanente, aceita, apoiada e celebrada que eu e as pessoas que eu amo têm enfrentado a partir de cada uma das instituições, incluindo o sistema legal, as religiões, a saúde, a mídia, a academia, a comunidade em geral, tantos grupos conservadores quanto progressistas, e até mesmo em espaços feministas. Discriminação e exclusão doem mais quando se trata das pessoas de quem você gosta e em quem pensou que podia confiar. Eu me sinto dessa forma sobre o feminismo. Como uma jovem mulher envolvida em grupos feministas, mas que não lidava abertamente com o meu trabalho sexual, levei um tempo para perceber o que feminismo e feministas falam e pensam sobre mim, e isso ainda dói.

Podemos concordar em discordar sobre a política da escolha e da existência de um perigo inerente ao sexo ou no excesso do sexo, ou se o trabalho sexual é pior ou melhor do que qualquer outra coisa em um mundo patriarcal. Eu não vou lidar com isso aqui, embora eu pense que são debates interessantes e instigantes. Interessantes, quer dizer, se eu e as pessoas com que eu me importo não estivessem sendo afetadas pelos resultados negativos desses debates diretamente e diariamente. (Nota da tradução: aqui, a autora insere um link para o artigo de uma militante feminista australiana que defende a adoção do “modelo sueco”, que criminaliza os clientes em vez das prostitutas: Review into prostitution must benefit women not business)

Mas acredito que, se nós podemos respeitar os motivos umas das outras, então é possível ter uma conversa respeitosa sobre nossas ações. Se nós confiamos nos motivos umas das outras, pode ser que ainda possamos encontrar alguma maneira de avançar. Eu respeito completamente que um dos motivos de feministas para se envolverem em qualquer debate ou ação sobre o trabalho sexual seja a sua preocupação com a segurança das trabalhadoras sexuais e que elas queiram proteger as mulheres contra a exploração. Espero que vocês possam respeitar que os motivos das profissionais do sexo para se envolverem em qualquer debate ou ação política sobre trabalho sexual são exatamente os mesmos. Se vocês concordam que esse é o nosso objetivo comum , então eu espero que vocês continuem a ler com uma mente aberta, sem julgamento e tenham tempo para considerar o que eu digo.

Vocês precisam ouvir as trabalhadoras sexuais

Profissionais do sexo de hoje em dia, aquelas que trabalham atualmente em qualquer país, local ou bordel com o qual vocês estão preocupadas. Vocês precisam confiar em nós. Acreditem que nós queremos o que é melhor para nós e nossas colegas de trabalho. Por favor, entendam que eu tenho no coração os melhores interesses das trabalhadoras sexuais. Todas as trabalhadoras sexuais, mesmo aquelas que não querem trabalhar com o sexo. Especialmente aquelas. Eu amo as trabalhadoras sexuais, eu amo a minha comunidade. Confiem em mim para falar sobre a injustiça, deixem-me dizer-lhes como lutar contra isso. Acreditem em mim quando eu lhes disser o que realmente está acontecendo para nós. Há tantas vozes de profissionais do sexo por aí para serem encontradas e ouvidas. Eu sei que se vocês não concordam comigo vocês podem facilmente ignorar-me, citando 1000 ‘estudos’ duvidosos e aplicações de teorias paternalistas sobre falsa consciência (Nota da tradução: aqui, a autora insere um link para um blog que ensina a silenciar grupos marginalizados mantendo privilégios baseados em racismo, transfobia, discriminação contra prostitutas, classismo, homofobia, capacitismo, kinkphobia e gordofobia: A Guide to Derailing Conversations), mas se vocês puderem deixar isso de lado por um momento, e procurarem pelas vozes das próprias profissionais do sexo, nós poderemos desafiar isso. Precisamos que vocês acreditem em nós, para que possamos confiar em vocês.

Por favor, não presumam nada sobre qualquer uma de nós. Nós não somos qualquer uma das coisas que vocês ouviram. E nós somos todas elas. Nós não somos algo unidimensional, nós somos diversas, nós não somos todas mulheres. A única característica universal que todas as trabalhadoras sexuais compartilham é o estigma. Somos pesquisadas de forma antiética (Big Brothel research ‘seriously flawed’ ), sofremos abuso de policiais (Sept CRS jugés pour viols sur des prostituées), somos universalmente patologizadas e sofremos discriminação em todas as dimensões de nossas vidas de maneiras muito reais e mensuráveis ​. Por favor, por favor, não se unam a isso. Desafiem os estereótipos. É cansativo ter que contar-lhes a minha história de vida tentando quebrar todas as suas ideias preconcebidas antes que eu possa mesmo compartilhar qualquer coisa real com vocês. Nós perdemos tanto tempo e energia tentando desafiar suas crenças sobre as trabalhadoras sexuais e sobre o trabalho sexual que isso nos deixa exaustas para a luta real. E é nisso que ambas podemos concordar, que se trata de promover segurança para as profissionais do sexo e proteger as mulheres de exploração.

Peço-lhes o favor de não se envolverem, ou promoverem, ou iniciarem qualquer ação política, social ou pública sobre o trabalho sexual, com base apenas em suas ideias preconcebidas, sem primeiro fazer o que foi dito acima. Não é OK escolher um tema e começar a fazer lobby em torno dele sem antes validá-lo junto às pessoas por quem vocês supostamente estão olhando. Eu acho que isso se chama paternalismo. Ou trabalho social. Enquanto vocês podem pensar que têm pontos válidos ou uma importante análise crítica que pode muito bem ser verdadeira, vocês não podem estar plenamente conscientes do impacto de suas ações, ou do resultado de qualquer coisa para a qual fizerem lobby a favor ou contra, sobre a vida real das trabalhadoras sexuais reais. Algo pode parecer bom no papel, mas vocês conhecem realmente o contexto social, político, cultural e econômico? Vocês já pensaram em como essa ideia poderia afetar negativamente as pessoas que vocês querem ajudar? Vocês já analisaram como sua ideia pode funcionar diante da desigualdade estrutural histórica e contínua que trabalhadoras sexuais enfrentam?

Por exemplo: por favor, por favor, nunca defendam algo que dá à polícia mais poder na indústria do sexo. Mesmo que seja para proteger as trabalhadoras sexuais. Historicamente e globalmente, a polícia tem sido fonte de abuso continuado, estupro, violência e assédio a prostitutas. Eles não são nossos protetores. Antes que vocês comecem a agir em nosso nome, conversem com as profissionais do sexo que vocês pretendem apoiar (Officer rapes “rescued” raid victim e Police swoop on suspected illegal brothel). Antes de escrever uma carta aberta a um banco, pedindo-lhe para não lucrar com as profissionais do sexo em um bordel em particular (Open Letter to Gail Kelly re: Mega-Sex-Plex from Emily Walker), conversem com as trabalhadoras daquele bordel.

Lembrem-se de que suas palavras têm poder (Westpac pulls out of brothel project). Enquanto feministas, ou como mulheres, vocês podem não estar acostumadas a serem ouvidas pelas estruturas dominantes, mas quando vocês falam sobre trabalho sexual isso muitas vezes muda. As trabalhadoras sexuais não têm uma voz em espaços tradicionais, de modo que quando vocês falam em nosso nome, vocês estão tomando para si a pequena quantidade de espaço que temos. Então, por favor, não o usem para tornar nossa vida mais difícil. Lembrem-se de que as suas palavras subitamente se tornarão poderosas quando elas concordarem ou apoiarem o discurso dominante de que as trabalhadoras do sexo são vítimas ou mulheres caídas. Não nos vendam para a dicotomia Santa e Puta. Não sejamos jogadas umas contra as outras, como se fôssemos prostitutas condenadas e protetoras divinas.

Se vocês realmente quiserem nos ajudar, escolham suas batalhas. Confiem em mim: há muitas para escolher. Mas nenhuma delas envolve fechar nossos locais de trabalho ou estimular programas de resgate e de requalificação profissional (Hookers rescued “against their will” in Angeles City), embora todos envolvam menos estigma e melhores escolhas. Eles não envolvem criminalizar nossos clientes (querida, essa é a nossa renda, isso é atacar as trabalhadoras) (On the Swedish Model), mas todos eles defendem locais de trabalho mais seguros e mais direitos. Eu compilei uma lista de algumas das principais questões que têm impacto sobre a capacidade de trabalhadoras sexuais estarem mais seguras e minimizar a exploração que as feministas podem querer considerar.

(Nota da tradução: aqui a autora lista cinco iniciativas de trabalhadoras sexuais australianas. No caso do Brasil, recomenda-se a consulta a iniciativas de associações de prostitutas como o Grupo Davida ou a APROSMIG, além do apoio a mobilizações espontâneas como aquelas recentemente realizadas pelas prostitutas de Niterói-RJ.)

1. O trabalho sexual na Austrália do Sul ainda é criminalizado sob leis que datam de 1930. A polícia assedia trabalhadoras sexuais, nos prende, utiliza nossos preservativos e outros produtos de sexo seguro e informação como evidências contra nós. Uma vez condenadas, nos tornamos ‘trabalhadoras sexuais reconhecidas’ e é ilegal ser nosso ‘consorte’. A criminalização cria barreiras para denunciarmos crimes contra nós ou para chamar a polícia, se nós precisamos dela. Nós também temos que esconder nossos preservativos, não podemos colocar cartazes ou mensagens sobre sexo seguro, não temos qualquer garantia de segurança e saúde ocupacionais (SSO) e nem direitos legais trabalhistas. Não podemos discutir abertamente o que aceitamos ou não fazer com potenciais clientes, pois eles podem ser policiais disfarçados.

2. Em Queensland você tem duas escolhas, trabalhar em um dos 25 bordéis licenciados ou trabalhar completamente sozinha. Você não pode contratar uma recepcionista ou trabalhar com outra profissional do sexo ou ter qualquer outra pessoa no local. Isso é, aparentemente, para protegê-la de cafetinagem. Obviamente quem trabalha sozinha vive em maior vulnerabilidade e os criminosos sabem disso (Prostitution and the law in Queensland).

3. Em Darwin, você tem duas opções, você pode trabalhar para uma agência de acompanhantes, mas deve registrar-se na polícia local e sabe-se que os registros são usados de forma inadequada, inclusive dando detalhes completos para checagem policial quando as trabalhadoras sexuais se candidatam a outro empregos. Obviamente, isso cria barreiras para aquelas que querem deixar a indústria. Se você não quer fazer isso, você pode trabalhar para si mesma, completamente sozinha, e fornecer apenas serviços de acompanhantes onde você visita o cliente em sua casa ou hotel. Você não pode trabalhar a partir de um lugar próprio e não há bordéis legais. Muitas profissionais do sexo se sentem mais seguras trabalhando em seu próprio espaço e bordéis proporcionam uma boa oportunidade para ter o apoio de colegas. Só permitir um tipo de trabalho significa que as trabalhadoras sexuais são forçadas a trabalhar de uma forma que pode não ser confortável para elas (Prostitution law puts sex workers at risk).

4. Em Victoria, trabalhadoras sexuais são forçadas a passar por inspeções mensais obrigatórias de DSTs (Monthly sex worker tests are ridiculous, health experts say), apesar de todas as estatísticas na Austrália provarem que trabalhadoras sexuais têm melhor saúde sexual do que o público em geral, e mesmo havendo muitas trabalhadoras sexuais que trabalham apenas alguns turnos por mês e muitas que não prestam um serviço sexual completo. Ainda assim, trabalhadoras sexuais são forçadas a visitar os médicos e a serem sondadas e apontadas pelo Estado sem qualquer dignidade, incutindo estereótipos mal informados sobre trabalhadoras sexuais como vetores de doença que devem ser controlados a fim de proteger o público em geral. Nós usamos preservativos. Eles funcionam, verifique as estatísticas. Não estamos em 1900, quando trabalhadoras sexuais com clamídia seriam detidas em hospitais, a fim de garantir um fornecimento limpo de prostitutas para os marinheiros americanos. Deem-nos boas condições de trabalho e podemos proteger a nossa própria saúde (Whose safety? Mandatory sexual health testing in the sex industry).

5. Em Western Australia o governo trabalhista está planejando introduzir um novo projeto de lei, que abrange o trabalho sexual e inclui os requisitos de que trabalhadoras sexuais devem ter registradas suas impressões digitais. Isso inverte o ônus da prova se houver suspeita de prostituição e exige que profissionais do sexo mostrem o seu verdadeiro nome completo no local de trabalho, onde os clientes possam visualizá-lo. Tenho certeza de que eu não preciso dizer-lhes quão revoltante e problemático isso é, em tantos níveis (Information Pack on proposed Sex Industry Laws for WA).

Vou parar nessas cinco, porque eu poderia ficar aqui a noite toda. Eu só abordei a legislação, mas há muitas outras questões nas quais também precisamos de ajuda, é só perguntar.

Quando você nos vir lutando contra a ideia de que todas nós somos vítimas, não é porque estamos encobrindo os problemas da nossa indústria. Reconhecemos os problemas. Nós vivemos com eles, nós lutamos contra eles, nos unimos para superá-los. E, às vezes, nós conseguimos progredir. Apenas acontece que, quando vocês vêm nos seus corcéis brancos prontas para nos resgatar, muitas vezes vocês não percebem o ponto central. Eu sei que o resgate de escravas sexuais e de mulheres indefesas é muito mais interessante do que maçantes direitos trabalhistas, segurança e saúde ocupacionais (SSO), antidiscriminação, reforma legal e proteções na indústria, mas são exatamente os direitos trabalhistas, segurança e saúde ocupacionais (SSO), antidiscriminação, reforma legal e proteções na indústria o que pode parar a exploração e nos fornecer locais de trabalho seguros.

Por favor, considerem trabalhar conosco, não contra nós.

Sinceramente,
Because i’m a whore.

Link para o texto original: Open letter to Australian feminists concerned about sex worker exploitation

Nota da tradução: o texto original tem links quebrados que foram suprimidos nesta tradução.


(*) A blogueira anônima que mantém o blog Because i’m a whore (“Porque eu sou uma prostituta”) se apresenta como uma mulher na casa dos 30 anos que vive na Austrália do Sul e trabalha como prostituta. Porque é uma prostituta, ela se arrisca a sofrer discriminação e assédio, o que faz com que tenha uma vida dupla. Porque é uma prostituta, ela precisa esconder sua verdadeira identidade.

Fechado para comentários.