Em defesa do trabalho sexual

Do grupo “A Dozen Pissed Off Sex Workers” para a revista de esquerda Red Wedge.

A tentativa de assassinato da atriz pornô Christy Mack é revoltante. Em 8 de agosto, o ex-namorado de Mack, Jonathan Koppenhaver (também conhecido por seu nome na Mixed Martial Arts, War Machine), invadiu a casa dela. Durante horas ele a espancou violentamente, ameaçou matá-la e a atacou sexualmente. Ela só conseguiu escapar depois de ele deixar o quarto. No fim de tudo, ela tinha 18 ossos fraturados na face, dentes quebrados e arrancados, costelas fraturadas e o fígado perfurado. Sua perna foi tão seriamente ferida por Koppenhaver que Mack tem dificuldades para andar.

A reação pública a esse ato hediondo tem sido igualmente dolorosa. Colunistas de direita e comentaristas na internet adotaram uma linha previsível, mas não menos destrutiva: que a história de Mack como atriz pornô a fez merecedora desse abuso e dessa tortura horrível. Infelizmente, isso é o normal, uma continuação do ciclo vicioso e repugnante de culpar a vítima e humilhá-la que normaliza a violência contra trabalhadoras sexuais.

É a última gota d’água. Como trabalhadoras sexuais, não aguentamos mais. Estamos cansadas de o público (que inclui boa parte da esquerda) se agarrar aos vestígios de um passado puritano. Portanto, com toda a raiva e a atitude de desafio que são apropriadas, convidamos você a conhecer uma posição matizada sobre sexualidade e trabalho: o trabalho sexual.

Aquelas de nós que estão na profissão temos visto como a caracterização equivocada sobre nós tem povoado a literatura, as conferências, o noticiário e frequentemente até as mentes daqueles que dizem querer “construir um mundo melhor”. E nós dizemos: nunca mais.

As trabalhadoras sexuais estão cansadas dessa posição de “culpar a vítima” – tanto da política convencional como da de esquerda – desde o começo. Mas também estamos cansadas com a chamada “mentalidade salvadora”, a versão perfumada da mesma escória que nos leva ao silêncio pela humilhação e nos relega à margem dos movimentos pelos direitos dos trabalhadores, da representação sindical e das lutas feministas. Aquelas de nós que se apresentam, cultivam personas, criam fantasias e pagam nossas malditas contas da maneira como nos agrada, somos trabalhadoras e artistas. Nos sentamos em salas de aula, em tribunais, em bares, em livrarias e ao seu lado nos ônibus. Nos respeite, como você respeitaria qualquer trabalhador lutando para sobreviver neste mundo. E se respeitar trabalhadores não é a sua posição de partida, reavalie como você foi capaz de concluir as tarefas mais essenciais e banais do dia. Nós o fizemos. Fazemos este mundo girar, e fazemos este mundo gozar. Nos respeite.

A pornografia não é uma dança vergonhosa com o Diabo. Aqueles que se engajam em pornografia estão engajados em um negócio, uma arte, uma indústria de entretenimento. Sem dúvida, é um negócio que acontece sob o capitalismo, e, portanto, está carregado com a mesma natureza explorativa sob a qual todo trabalho é conduzido. Não estamos dizendo que estamos “fora da rede”, mesmo quando a rede não nos admite. Entendemos que nosso trabalho é negociado de maneiras diferentes e complexas e no contexto do sistema econômico mais opressivo que o mundo já conheceu.

É um sistema racista, heteronormativo, excludente, gordofóbico, homofóbico e ainda mais. Reconhecemos isso, e lutamos ativamente contra manifestações dessas opressões dentro de nossas próprias comunidades. Também entendemos que nosso trabalho está situado particularmente sob a cultura do estupro institucionalizado de nossa sociedade. Isso cria uma intersecção específica de dinâmicas opressivas em que artistas, atores e trabalhadores culturais têm que navegar. Dito isso, todos os trabalhadores têm que sobreviver sob essas condições. Não queremos apenas sobreviver, queremos prosperar.

Grupos especialmente oprimidos têm uma existência ainda mais árdua por causa dessas condições. Mulheres e pessoas que se identificam como mulheres não deveriam sofrer bullying para se arrepender de atos seguros e consensuais – sejam pessoais ou transacionais. As atitudes hipócritas diante da pornografia e da sexualidade feminina só mantêm o escopo limitado da indústria convencional. Exigimos aceitação, à medida que é a intolerância que nos impede de levarmos vidas saudáveis e produtivas.

Educação é um direito

Algumas de nós buscam educação superior, e também lá enfrentamos discriminação. As faculdades se recusam a admitir que há trabalhadoras sexuais nos campus. O velho estereótipo de mulheres fazendo strip-tease para pagar a escola secundária não reflete a diversidade do trabalho sexual praticado nos campus ou por estudantes, funcionários e professores. A dívida dos estudantes americanos é superior a 1 trilhão de dólares. Jovens estudantes mulheres, com corpo de mulher ou que se identificam como mulheres têm contas que o trabalho sexual pode pagar mais do que qualquer trabalho em serviços de baixo salário. Essa é uma realidade que funcionários e professores-assistentes mal pagos conhecem muito bem.

Miriam Weeks, ou Belle Knox, a chamada estrela pornô da Universidade Duke, é apenas o exemplo mais famoso de estudante se engajando em trabalho sexual. Ela também é apenas o exemplo mais recente das maneiras como a cultura universitária do estupro se aplica a trabalhadoras sexuais em comunidades acadêmicas. Aparentemente, é menos constrangedor para a Universidade Duke esmagar a busca de uma jovem por educação do que reconhecer que estudantes na realidade se engajam em trabalho sexual para quitar os enormes empréstimos que fizeram para pagar as anuidades das faculdades.

Miriam é eloquente ao dizer: “Todo mundo está focado em minha decisão de atuar em pornografia para pagar minha anuidade. Vamos começar a prestar atenção naquilo que me trouxe até aqui. Dívidas com anuidades extorsivas resultam de uma cultura, do presidente para baixo, dizendo a todas as crianças que elas devem ir para a faculdade, independentemente de seus planos para o futuro ou de sua capacidade para formar-se. E elas resultam de as escolas estarem muito contentes em elevar os preços para apanhar todo o dinheiro que flui da torneira federal.”

O puritanismo desdenhoso, tão generalizado nas administrações universitárias, é particularmente podre se considerarmos a natureza endêmica do estupro e do assédio sexual nos campus. O que as dificuldades de Belle Knox e outras trabalhadoras sexuais estudantes nos mostram é a intersecção básica entre o desempoderamento da trabalhadora sexual e a cultura do estupro. Essas lutas são uma e a mesma, e o feminismo já não pode ter a pretensão de combater uma sem destruir o outro. Miriam também falou em uma entrevista à revista Elle. “Primeiro, eu gostaria de ver a descriminalização da prostituição. As trabalhadoras sexuais deveriam receber a mesma proteção perante a lei. Quero que nosso trabalho seja tratado como legítimo. Agora mesmo, se eu me dirigisse a um policial para denunciar alguma coisa que tenha acontecido comigo, ele diria ‘Você é uma prostituta, eu não ligo’.”

O trabalho sexual deveria ser descriminalizado

Tanto as leis federais como as estaduais reprimem ativamente as trabalhadoras sexuais, fomentando um sistema de violência contra nossos corpos, nossos meios de vida e nossas comunidades. O Arizona, especialmente, tem uma das legislações sobre prostituição mais duras do país. E sob essas normas amplas, as trabalhadoras sexuais são alvo, são presas ou assediadas nas agendas antitráfico de programas de resgate que são cúmplices de instituições acadêmicas, religiosas e policiais.

O infame Projeto Rose é uma dessas organizações antitrabalhadoras sexuais que buscam “salvar” as trabalhadoras sexuais de si mesmas. Aquilo de que elas realmente participam chega à detenção (às vezes ilegal), em nome da polícia, daquelas que elas suspeitam de prostituição. Uma mulher trans, Monica Jones, descobriu quão brutais essas leis antitrabalho sexual podem ser, e ela não estava nem trabalhando. Monica cometeu o erro, como muitas de nós fazem, de andar na rua em sua própria pele. “Andar como trans” foi o que levou agentes à paisana da polícia de Phoenix a lhe oferecerem uma carona para um bar local.

Darby Hickey explica esse fenômeno. “Em outras palavras, ‘andar como trans’ é um resumo sucinto dos preconceitos interligados contra mulheres trans (e pessoas trans de um modo geral, algumas vezes chamados de transfobia) e contra pessoas que comerciam serviços sexuais por dinheiro ou outras coisas (às vezes chamados de putafobia), e cobertos com aquele molho especial do racismo.”

Monica Jones.

Depois de prendê-la por oferecer serviços, ou, na verdade, pela “intenção de cometer”, ao invés de levá-la à delegacia, eles a levaram ao porão de uma igreja, onde nada menos do que o infame Projeto Rose podia intervir. Em face de ser condenada por crimes que não cometeu, Jones ficou firme e disse “Chega”. O apoio esmagador que Jones ganhou em nível internacional indica que já basta o que temos de estereotipagem, racismo, criminalização e também estigma.

Às vezes nos matam, às vezes não conseguem

A narrativa da grande imprensa sobre a brutalidade que Christy Mack sofreu nas mãos do War Machine anula a distinção entre a simulação de sexo violento em seus filmes pornográficos e a experiência muito real de abuso por um parceiro. Mas violência simulada e violência real não são a mesma coisa.

A violência simulada acontece o tempo todo em videogames, filmes de terror, produções teatrais de Shakespeare e, sim, também na pornografia. Violência simulada é só isso: simulada. É uma atuação, potencialmente uma atuação problemática, mas é uma representação da violência. Se um ator recebe um roteiro, concorda com ele, atua conforme o roteiro e recebe o valor combinado, isso é chamado de trabalho. Mesmo se ele sugere conteúdo violento. Quando desempenhamos papéis nos chamados filmes violentos para adultos, estamos de alguma maneira minando a agenda feminista e contribuindo para a opressão geral da mulher – nossa própria subjugação. Raramente somos vistas como trabalhadoras, como atrizes ou como pessoas.

Violência real é quando parceiros ou clientes nos espancam. Violência real é quando policiais nos assediam, detêm e estupram. Violência real é quando somos humilhadas ou degradadas por causa de nossa profissão. E quando uma sociedade constrói instituições para impor essas condições, isso também é violência real. Nossas “más escolhas na vida” e “vidas sexuais perigosas” são, no fim das contas, nossa sentença de morte aos olhos do público. Mack não foi espancada quase até a morte como estrela pornô. Mas sim como mulher.

Mulheres são ensinadas que são elas as culpadas pela violência sexual que se exerce contra elas. O comprimento da saia, a altura do salto, a intoxicação, o histórico sexual e um monte de outros fatos irrelevantes são constantemente usados contra sobreviventes de ataques sexuais. Todos os aspectos de nossas vidas ficam sob escrutínio, embora as vidas de nossos abusadores raramente sejam investigadas tão intensamente. Em uma sociedade estruturada pela cultura do estupro, não é surpresa que uma mulher que tenha feito sexo diante das câmeras seja considerada como tendo provocado o ataque contra ela mesma.

No mundo degradado e injusto em que vivemos, nossas vidas sexuais são transformadas em armas contra nós mesmas, jogadas contra nós, como na frase “Elas pediram isso”. Samantha Allen, em seu artigo Parem de Culpar Christy Mack: Estrelas Pornô Não Merecem Ser Espancadas, esclarece nosso argumento: “Os atos ficcionais de violência que às vezes são representados na pornografia não justificam a violência real que uma estrela de filmes para adultos como Christy Mack pode experimentar em sua vida doméstica. Afinal, nós não culpamos um dublê por ser atropelado por um carro na vida real só porque ele às vezes é atropelado durante as horas de trabalho. Mas, como Mack trabalha como um ícone visível em uma indústria sexualizada, que muitos acreditam ser inerentemente imoral, Mack terá de ser defendida nas próximas semanas daqueles que atribuem o abuso que ela sofreu a ‘más escolhas de vida’.”

Em defesa da pornografia

Argumentamos que a pornografia é uma arte baseada em atuação, não diferente de outros gêneros de filme. É uma criação cultural, que reflete as demandas daqueles que a procuram. É uma arte de muitas tendências. É um trabalho, assim como uma arte. A pornografia que fazemos e o trabalho sexual que desempenhamos não deveriam ser considerados sinônimos com nossa sexualidade. Sem dúvida, algumas de nós gostamos do trabalho que fazemos, mas algumas de nós (como em qualquer outro trabalho) temos críticas sérias e queixas. Há um debate sobre nosso trabalho. E nos sentimos mais inclinadas a ficar do lado de uma de nós, Melissa Gira Grant. Em seu último livro, “Playing The Whore” (No Papel da Puta”), ela escreve: “Nós deveríamos, na verdade, recusar-nos a debater. O trabalho sexual em si mesmo e, inseparáveis dele, as vidas das trabalhadoras sexuais, não estão abertos ao debate – ou não deveriam estar.” A noção de que trabalhadoras sexuais são humanas, merecedoras de dignidade, respeito e direitos, não é generalizada. Sim, temos feito um trabalho elogiável de criar organizações para nós mesmas, projetos de ajuda e redes ocultas; mas até termos acesso à comunidade cultural, até termos poder político, teremos de lutar por isso.

Grant prossegue: “Da mesma forma, deve haver espaço para [trabalhadoras sexuais] identificarem, pública e coletivamente, o que elas querem mudar sobre como são tratadas como trabalhadoras, sem que lhes digam que a única solução é elas saírem dessa indústria.” Parem de nos dizer “arrumem outro emprego”. Nós já temos emprego. Nós já trabalhamos. Nós já trabalhamos para sustentar a nós mesmas e a nossas famílias. Deveríamos trocar um trabalho cujas fronteiras nós definimos, com o qual consentimos, no qual controlamos as horas, por empregos de baixo salário em lojas ou em redes de fast food?

Sem dúvida, há um movimento inspirador de organização sindical dos trabalhadores de baixos salários, estamos extasiadas ao ver isso acontecendo. Mas que tal o movimento sindical parar de ignorar a profissão mais antiga e começar a nos organizar? Já temos uma profissão, que não consideramos como vergonhosa. Não tentem redirecionar a validade de nossas reivindicações e as críticas do nosso campo para uma feira de empregos mal informada. Para dar esse salto na direção do reconhecimento da legitimidade de nosso trabalho, Grant diz que “precisamos redefinir as linhas do debate sobre a prostituição”. “Ou as prostitutas estão no debate, ou não estão. As trabalhadoras sexuais estão cansadas de ser convidadas para investigar publicamente a política de suas próprias vidas só quando estão também dispostas a servir de joguete para a política de outros.”

Não se torne vítima das posições supersimplificadas que a esquerda manteve no passado, ou continua a arrastar como uma mala. Não tente nos salvar. Não acredite nas feministas liberais que prometem que seus programas têm nossos melhores interesses em mente. Não assuma que precisamos das suas análises para ilustrar nossas experiências vividas. Respeite-nos e nosso papel como trabalhadoras e artistas. Ouça quando criticarmos você por adotar uma posição reducionista sobre nossa arte. Posicione-se em solidariedade a nós em nossa luta por representação sindical, livre manifestação, melhora das condições de trabalho e descriminalização.


“A Dozen Pissed Off Sex Workers” (“uma dúzia de trabalhadoras sexuais putas da vida”) é um grupo de ativistas e artistas que atuam em vários setores da indústria do sexo. Suas integrantes são de Chicago, Los Angeles, Texas e Nova York, e preferem manter o anonimato por medo de represálias. O artigo foi publicado em 23 de agosto, com o título em inglês Labor Intensive: In Defense of Sex Work.

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