Belo Horizonte: pandemia deixa centenas de trabalhadoras sem renda e moradia

Por Cecília Emiliana para o Estado de Minas. Imagem de Thiago Fonseca.

Distanciamento social imposto pelo COVID-19 e fechamento de hotéis do baixo Centro podem expor categoria à extrema precariedade; prefeitura ainda não sabe como vai lidar com a questão.

Mãe de dois filhos – ambos residentes em Angicos, no interior do Rio Grande do Norte -, a prostituta Gabriela*, de 40 anos, não manda mais dinheiro para a família desde a semana passada. Sua renda foi reduzida a praticamente zero desde o estouro da pandemia de coronavírus em Belo Horizonte, onde ela vive há cinco anos.

Nesta sexta-feira (18), Gabriela perdeu também a moradia, já que o hotel em que ela residia e trabalhava, situado na rua Guaicurus, Centro de BH, fechou as portas por tempo indeterminado. A profissional foi acolhida por um coletivo de profissionais do sexo, que lhe ofereceu abrigo e alimentação durante a quarentena. “Foi um alívio, pois voltar à minha cidade não é uma opção”, relata a profissional.

Centenas de trabalhadoras sexuais da capital mineira podem não ter a mesma sorte. A Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig), que estima haver duas mil garotas de programa atuando em 28 hotéis da Região Central, teme que, com o distanciamento social imposto pela Covid-19, o destino de muitas dessas mulheres seja a rua.

Sem amparo do município, que ainda não sabe como vai lidar com a situação, resta a elas, até o momento, algum auxílio vindo de ONGS, coletivos e pastorais, que alertam: a precariedade imposta ao baixo meretrício de BH pode contribuir para o agravamento do surto viral.

Imigrantes

“O que agrava a situação é que 90% da nossa categoria vêm de outras cidades. Com o sumiço dos clientes e o fechamento de hotéis, muitas ficaram sem dinheiro sequer para pagar a passagem de volta às casas de suas famílias. As que não têm para onde voltar e permanecem nos hotéis ainda em funcionamento, já não tem como continuar pagando as diárias. Até o agora, estamos praticamente abandonadas à nossa própria sorte, ou à caridade”, relata Cida Vieira, presidente da Aprosmig.

Sem obrigação de paralisar as atividades – já que não foram contempladas pelo Decreto 17.304/2020, do prefeito Alexandre Kalil, muitas hospedarias reduziram o valor das diárias. Segundo a profissional do sexo e fundadora do Coletivo Clã das Lobas, Fátima Muniz, o preço médio baixou de R$ 100 para R$ 50.

“De qualquer forma, nós precisamos e queremos parar. Primeiro, porque é uma questão de saúde pública. Depois, porque continuar trabalhando também aumenta o estigma que existe sobre nós. Já somos vistas como veículos de doenças. Não queremos reforçar essa marca”, afirma Fátima.

O Coletivo Clã das Lobas é voltado à promoção de ações culturais e de saúde, além de assessoria jurídica para trabalhadoras sexuais da capital. A entidade conseguiu uma casa para alojar prostitutas que porventura perderem a vaga em quartos alugados. A lotação máxima da residência, no entanto, é de apenas 40 mulheres.

Hotéis

Proprietário do Magnífico Hotel, tradicional da rua Guaicurus, Flávio Dornas diz que contribui para mobiliar o local. Fez também doações de mantimentos e produtos de higiene para a casa. Ele optou por fechar os 52 apartamentos de seu estabelecimento e afirma que não vai dispensar funcionários, nem reduzir salários.

“Nosso plano de fechar o hotel já está em execução desde domingo. A ideia é garantir a segurança das meninas (para quem os quartos são alugados), dos meus funcionários e das pessoas que frequentam o hotel. Ainda há seis garotas aqui. Duas estão voltando para o interior. As outras quatro que não têm para onde ir estão sendo encaminhadas para a casa do Clã das Lobas. Se elas ficassem, nossa dificuldade de controlar o isolamento seria muito grande. O momento é de nos resguardarmos. Minha maior preocupação, agora, é zelar pela vida de todos nós. Dinheiro, a gente ganha depois”, pondera o empresário.

Comitê

Questionado pelo Estado de Minas, o município informou que ainda não tem um plano traçado para assistir as prostitutas em situação de vulnerabilidade por conta do surto global. Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania de Belo Horizonte relata que iniciou “um processo de escuta das lideranças da categoria a fim de compreender suas necessidades”.

“Algumas demandas, como acesso à alimentação e emissão de passagens, já são atendidas pela Prefeitura no caso de populações vulneráveis e, por seu caráter essencial, serão mantidas mesmo no contexto do Covid-19”, diz o texto enviado pelo órgão.

De acordo com Cida Vieira, esse diálogo corresponde ao estabelecimento de um comitê de combate ao coronavírus na zona de prostituição de Belo Horizonte. O grupo reúne membros da Aprosmig, da Associação dos Amigos da Rua Guaicurus, Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES/MG), Polícia Militar (PMMG), além de donos de hotéis que funcionam na região.

Entre as reivindicações do movimento, está o repasse de parte dos impostos recolhidos na Rua Guaicurus à manutenção da população vulnerável da região, o que inclui as prostitutas.

“Nós apoiamos as medidas de contenção do coronavírus. Mas precisamos responder a uma questão: como essas mulheres vão se manter na quarentena? Porque nós existimos, embora o governo e a sociedade ainda insistam em negar isso. Inclusive, pagamos impostos”, reflete Cida.

Garotas trans

Travestis e transexuais que exercem a atividade sexual na capital mineira poderão contar, em breve, com uma renda mínima, além de atendimento psicológico gratuito. A iniciativa é da ONG Transvest, coordenada pela ativista Duda Salabert.

O auxílio financeiro, no valor de R$ 100 mensais, será disponibilizado a 90 prostitutas trans da capital mineira. Às idosas, o valor repassado será de R$ 200. Por enquanto, a bolsa está garantida para os meses de março e abril. O auxílio psicológico será prestado de forma virtual.

“No atual momento do coronavírus, é indicado o distanciamento social. Essa medida, apesar de ser extremamente importante, traz inúmeros impactos para nós, travestis e transexuais. É importante lembrar que, no Brasil, 90% dessas pessoas está na prostituição, pois há uma transfobia odiosa que nos expulsa do mercado de trabalho. Nesse sentido, o distanciamento social pode significar o fim da única renda das pessoas trans no país. Nós, da ONG Transvest, queremos minimizar esse cenário em Belo Horizonte”, afirmou Duda em em vídeo publicado no Instagram.

As trabalhadoras interessadas em usufruir dos benefícios devem entrar em contato via WhatsApp, pelo número (31) 99398-3571.