Por que eu não sou mais uma abolicionista

A esta altura do ano passado, eu era uma abolicionista da prostituição. A favor da Lei do Comprador de Sexo (também conhecida como Modelo Nórdico ou Modelo pelo Fim da Demanda, embora isso seja enganoso) e contra a indústria do sexo. Era algo com que eu havia flertado anteriormente, depois me afastei, e então me joguei dentro. Falei no lançamento do relatório do CPHRC, em julho passado, que promoveu o ponto de vista do Modelo pelo Fim da Demanda, escrevi alguns artigos aqui e no Telegraph, fui convidada a falar em várias conferências abolicionistas e feministas e consegui um contrato para publicar um livro.

Então, mudei de ideia. Antes de explicar por que, primeiro preciso explicar como cheguei lá. Sou sobrevivente de abusos, dentro e fora da indústria. Originalmente, fui traficada domesticamente aos 21 anos, optei pelo trabalho sexual aos 29. Em grande parte por causa de uma dependência furiosa de drogas, mas também por causa de dívidas e desemprego nos quais eu havia caído depois de fugir de um relacionamento abusivo. Em minha mente, não há dúvida de que, já tendo experimentado o abuso sexual e o tráfico, seria mais fácil para mim “me amortecer” ao fazer sexo com clientes, algo que eu, pessoalmente, precisava fazer. Quando mudei do trabalho de acompanhante para a pornografia, achei esse lado da indústria terrivelmente explorador. Finalmente saí, em pedaços, depois de ser espetada e estuprada. Levei mais dois anos para ficar livre das drogas.

Quando me deparei com o movimento “sobrevivente”, que falava sobre experiências que eu reconhecia, foi como voltar para casa. Finalmente me senti capaz de compartilhar minhas experiências honestamente e sem sentir que estava sendo julgada, humilhada, ou que estava excitando o ouvinte. Aceitei o que me era dito sobre o Modelo Nórdico; que ele era um enquadramento que apoiava as mulheres e punia os perpetradores. E todos os compradores eram perpetradores. Fui encorajada a compartilhar, recompartilhar e compartilhar novamente minhas experiências traumáticas (sem pagamento, é claro), ao ponto em que eu era uma ruína trêmula, com raiva do mundo, e que acreditava totalmente que as mulheres estariam condenadas sem a aprovação de uma Lei do Comprador de Sexo, e que qualquer um que tivesse outra opinião era parte da Grande Conspiração dos Cafetões. Olhando para trás, a sensação é a de ter-me juntado a um culto. Eu estava salva! E eu tinha a responsabilidade de salvar outras.

Agora, estou mortificada com o modo como ignorei os esforços daquelas que tentaram, pacientemente, mostrar-me as evidências documentais contra o Modelo Nórdico. Que não só ele não funciona (quando é que criminalizar qualquer coisa já levou ao seu fim?), mas, nas regiões em que ele foi aprovado, as trabalhadoras sexuais estão sofrendo. Que, apesar de as trabalhadoras sexuais não serem perseguidas por vender sexo, elas podem ter seu dinheiro apreendido, ser expulsas de onde moram, ser assediadas pela polícia, ser acusadas de administrar um bordel apenas por estarem trabalhando em duplas e continuar a ser estigmatizadas. É claro que eu assumi que devia haver algum erro. As abolicionistas me informaram que era tudo falso, que isso era parte de um plano do lobby para legalizar a exploração e o tráfico de mulheres vulneráveis (elas ignoram rotineiramente a existência de trabalhadores sexuais masculinos ou GNC). Aquilo me deixou apavorada. Comecei a ver bichos-papões e cafetões em cada esquina.

Quando me juntei ao Twitter e fui recebida com os inevitáveis trolling e doxxing, acreditei ainda mais nas abolicionistas. Quando defensoras das trabalhadoras sexuais me acusavam de mentir ou de ignorar os abusos, e quando encontrava pessoas que negavam a existência do tráfico, isso era toda a evidência de que eu precisava.

Mas isso não foi tudo o que eu vivi. Também falei com pessoas, em sua maioria trabalhadoras sexuais em atividade, que dedicaram seu tempo para apontar, educadamente, que eu estava errada. Que o Modelo Nórdico está tornando suas vidas mais duras e fazendo o oposto exato de ajudar aquelas que querem sair. Que a criminalização do trabalho sexual nunca deteve o tráfico. Que eu podia pensar que comprar sexo é errado eticamente, e ao mesmo tempo admitir que uma Lei do Comprador de Sexo, na prática, é uma ideia horrível. Conheci organizações fantásticas de trabalhadoras sexuais que não glamorizam a indústria, mas insistem no reconhecimento do fato de que o trabalho consensual com sexo existe e que se mulheres estão fazendo isso por causa de dependência de drogas, pobreza ou falta de moradia, uma Lei do Comprador de Sexo não remove nenhuma dessas causas. Oferta e demanda são uma rua de duas mãos. Elas falaram contra as deportações de vítimas do tráfico, moradia inadequada e políticas de drogas, e eram ferozmente contra a austeridade. São coisas em que eu acredito com paixão.

Então eu comecei a ouvir e a pensar mais objetivamente sobre minhas próprias experiências. Também comecei a ver um lado diferente daquele do movimento abolicionista. Ele é abastecido principalmente por movimentos religiosos de direita e feministas radicais, dois grupos com os quais nunca havia imaginado que concordaria sobre qualquer coisa. Mais chocante ainda, descobri que o movimento feminista radical de sobreviventes no qual eu havia entrado, e pelo qual havia sido convidada a dar palestras no exterior, era vinculado a ordens religiosas na Irlanda que são conectadas às infames Lavanderias de Madalena.1As Lavanderias de Madalena, ou Asilos de Madalena, eram instituições católicas que atuaram na Irlanda entre o fim do século 18 e o começo do século 20. Ostensivamente, eram abrigos para “mulheres caídas”. Cerca de 30 mil mulheres foram aprisionadas e trabalharam como escravas nesses lugares. As Lavanderias foram fechadas depois da descoberta de 155 corpos em uma vala comum em um terreno das Irmãs da Nossa Senhora da Caridade, em 1993. Em 2013, ao fim de uma investigação, o governo da Irlanda fez um pedido formal de desculpas por seu envolvimento na gestão daquelas casas e destinou 50 milhões de libras para indenizar as sobreviventes. As ordens religiosas envolvidas se recusaram a contribuir para o programa de indenizações. Os mesmos lugares onde, em nome do resgate de mulheres “caídas”, abusavam delas e as escravizavam. Não é uma imagem boa. Mas quando eu questionei isso, me disseram que era “irrelevante”.

Sem cerimônia, fui jogada de lado. Nada mais de palestras, nada mais de endosso para livros. Por questionar gentilmente se não deveríamos nos afastar de um modelo que todas as evidências disponíveis indicam que não estava funcionando. Referindo-se ao aumento da violência contra trabalhadoras sexuais e à pobreza contínua propagada pelo Modelo Nórdico, uma abolicionista proeminente também me disse que “sim, ele vai prejudicar no curto prazo, mas vale a pena no final”. Essa foi a última gota d’água para mim. Jogar aquelas mesmas pessoas com quem você diz se preocupar debaixo de um ônibus em nome de uma ideologia não é OK na minha cartilha. Eu era aquela mulher oito anos atrás, e estou envergonhada pelo quão facilmente eu a abandonei.

Também testemunhei uma organização que faz campanhas com estatísticas do Modelo Nórdico que ela sabia que eram falsas – porque elas “fazem a mensagem passar”. Mulheres de classe média que são feministas radicais e que admitiam nunca ter falado com uma trabalhadora sexual em suas vidas me diziam que “a prostituição prejudica todas as mulheres”, e que por isso a aprovação de leis que prejudicam as trabalhadoras sexuais era justificada. Me disseram que todo trabalho sexual é uma forma de estupro, mesmo quando as trabalhadoras sexuais nos asseguram que não é. É perigoso não permitir que as mulheres digam o que é abuso e o que é consensual. Como é que uma trabalhadora sexual pode denunciar que foi estuprada, se todo trabalho sexual é uma forma de estupro?

É claro que tudo isso não é surpresa para trabalhadoras sexuais em atividade, que vinham tentando me dizer essas coisas desde o começo. Mas espero que outras “sobreviventes” possam permitir-se chegar às suas próprias conclusões, ao invés de submeter-se a lavagem cerebral. Porque o que eu aprendi da maneira difícil é que as abolicionistas não se importam com a nossa dor, mas usam nosso trauma para servir a seus próprios planos. No momento em que questionei esses planos, tornei-me o tipo errado de sobrevivente.

Me retirei com o rabo entre as pernas, sentindo-me ferida e traída e brava comigo mesma por ser tão ingênua. Eu continuaria lá alegremente, mas ainda tenho um livro para escrever e uma história para contar, e, portanto, uma chance de tentar me redimir de qualquer mal que eu tenha causado da primeira vez.

Diga Não ao Modelo Nórdico.

NOTA: As Lavanderias de Madalena, ou Asilos de Madalena, eram instituições católicas que atuaram na Irlanda entre o fim do século 18 e o começo do século 20. Ostensivamente, eram abrigos para “mulheres caídas”. Cerca de 30 mil mulheres foram aprisionadas e trabalharam como escravas nesses lugares. As Lavanderias foram fechadas depois da descoberta de 155 corpos em uma vala comum em um terreno das Irmãs da Nossa Senhora da Caridade, em 1993. Em 2013, ao fim de uma investigação, o governo da Irlanda fez um pedido formal de desculpas por seu envolvimento na gestão daquelas casas e destinou 50 milhões de libras para indenizar as sobreviventes. As ordens religiosas envolvidas se recusaram a contribuir para o programa de indenizações.


Publicado em Medium.com e traduzido por Renato Martins. A foto que ilustra este artigo é da Wikipedia e mostra uma das Lavanderias de Madalena no começo do século 20.