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A potência do I Encontro Interestadual Marapiauí de Trabalhadoras Sexuais 2023: protagonismo de mulheres e articulação política

Debora Barcellos

Jesus. Foto: Marlene Teixeira

Nos dias 24 e 25 de novembro de 2023 aconteceu em São Luís do Maranhão o I Marapiauí. Um encontro de trabalhadoras sexuais que contou com a presença das três articulações nacionais – Rede Brasileira de Prostitutas (RBP), Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS) e Associação Nacional de Profissionais do Sexo (ANPROSEX), coletivos e lideranças de vários lugares do país, trabalhadoras sexuais e público em geral.

O palco do evento foi o Convento das Mercês, no coração do centro histórico de São Luís do Maranhão. É sempre emblemática a transa de um evento desse tipo e dessa magnitude com lugares nos quais, em outros tempos, nenhuma de nós seria bem vinda – apesar da relação histórica de dualidade do “profano” e do “sagrado” – entre muitas, muitas aspas. Obviamente que não convém perder a oportunidade de trazer essa provocação, porque sabemos de toda hipocrisia que permeia termos que se pretendem opostos, como puta/esposa, mulheres más/mulheres boas, mulher para comer/mulher para casar. Porque sabemos que os mesmos homens que frequentam as camas dos bordéis e as camas das mulheres que escapam às formas ideais de feminilidade e comportamento, costumam ser os mesmos que frequentam as camas dos lares.

Célia Gomes. Foto: Marlene Teixeira

Uma das anfitriãs do I Marapiauí é uma mulher negra, prostituta, de nome Jesus – nossa Jesus de São Luís. Como me disse Natânia Lopes, isso é de um lirismo maravilhoso demais para ser verdade. E Jesus é tudo aquilo que o Jesus da bíblia recomenda que as pessoas sejam – cheia de sabedoria, amorosa, gentil, acolhedora, aguerrida na luta pelas pessoas que precisam. A outra anfitriã é Célia Gomes, do Piauí. Também mulher negra, prostituta, engajada, assertiva, de voz forte, com um sorriso que abraça a gente, sabem como é? Junto ao coletivo Por elas empoderadas, Jesus e Célia prepararam uma recepção regada a música ao vivo, performance artística, distribuição de botões de rosas vermelhas e com as palavras de Jesus: “Que todo mundo saia feliz. Esse momento exige amor. É um momento de felicidade!”. Naquele salão enorme e climatizado para que pudéssemos ficar mais confortáveis no calor do Maranhão, o ambiente era de festa. Mas uma festa para serem faladas coisas sérias e urgentes.

Na programação do primeiro dia tivemos a apresentação dos movimentos sociais presentes; palestra com o Ministério da Saúde; oficina de Profilaxia Pré Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós Exposição (PEP) e, para encerrar, uma mesa redonda sobre saúde mental. Aliás, a saúde mental foi pauta na maior parte do tempo, independentemente de se ter uma mesa reservada para o assunto. E se trata de uma pauta de denúncia. A grande reivindicação nesse sentido é que as trabalhadoras sexuais são sujeitos de direito e precisam ter as demandas do trabalho que exercem plenamente atendidas pelos serviços públicos de saúde integral, para além de meramente serem percebidas como agentes efetivas no combate às infecções sexualmente transmissíveis. Em outras palavras – são mulheres. Integralmente mulheres. Cada uma delas dona de um corpo inteiro que precisa de cuidado. Essas mulheres não são apenas as suas bocetas.

Outra reivindicação pungente e destacada foi o quão imediato é reafirmarmos a luta e mobilizarmos a sociedade no combate ao estigma e ao preconceito. Estigma e preconceito produzem sofrimento, relegam às margens pessoas dignas e trabalhadoras. E não somente elas, mas também suas famílias, especialmente filhas e filhos. E contra isso, levantamos a bandeira do amor!

Na manhã do segundo dia houve duas mesas redondas – uma sobre saúde da mulher e violência de gênero, outra sobre regulamentação do trabalho sexual. A parte da tarde foi reservada às lideranças, que dialogaram e elaboraram uma Carta do Movimento, que espero ver circulando publicamente em breve.

A organização de tudo estava impecável. Além de água, café e lanches disponíveis o tempo todo, almoçamos – e muito bem – uma comidinha gentilmente oferecida pelo evento, com gosto de comida de mãe, num prédio público onde funciona a Escola de Música do Bom Menino, a poucos metros do convento.

Dado um panorama geral, destaco associações e algumas pessoas que estavam presentes. Gabriela Leite, sempre presente, antecede nossa chegada nesses espaços. O coração de Lourdes Barreto estava lá, já que nossa putriarca estava num compromisso em São Paulo. Jesus e Célia, como já mencionado, nossas anfitriãs. Diversas associações e coletivos se fizeram presentes – APROSBA, APROSPI, Clã das Lobas de MG, Coletivo Coisa de Puta, Tulipas do Cerrado, Aprosmig, Associação Mulheres Guerreiras – Unidas pelo Respeito Nossa querida puta poeta Vânia Rezende não pode estar ao nosso lado, mas nos brindou com um vídeo em que lia uma poesia especialmente escrita para aquele encontro, a qual ela me autorizou compartilhar nesse texto:

A união é tudo

Nós putas sabemos o poder de empoderar, o que é empatia, solidariedade, amizade, carinho,

Sabemos também que juntas somos mais fortes, haja sorte.

Foi através da necessidade da União que surgiu o MaraPiauí.

Uma mistura de Maranhão com Piauí que maravilha.

E transformou-se a em uma mistura com todos os estados do Brasil.

Somos semelhança e muito amor, afinal de contas, o Brasil é um celeiro de putas e muita luta.

A gente nasceu para brilhar, somos mulheres fantásticas, cheias de graça guerreiras sem escudo, nossa força está sempre presente na puta luta.

Quando uma puta se movimenta, todas as putas se movimentam. Isso desde os anos 90.

Não vamos mudar para agradar ninguém, somos o que somos.

Mulheres livres trabalhadoras sim senhor da União das irmãs de profissão surgiu o MaraPiauí uma prova que o sonho não acabou

Autoria: Vânia Rezende

Alegria na luta, alegria apesar da luta!

Não posso deixar de registrar, também, que num contexto que sempre é de luta e estado de alerta, apesar de tudo, fazemos da vida uma festa. Foi no bar Meu Bem que nos reuníamos após as atividades, para beber, sorrir, cantar, trocar afeto e ser feliz. Reforço o argumento da importância do festejo ser parte integrante dos  movimentos sociais, parafraseando Silvia Federici, que numa conferência da Faculdade de Ciências Sociais da UFG em 2022 disse: “as lutas não podem se tornar mais um trabalho alienado. Nas lutas precisamos também criar outras formas de sentir, de sermos solidários, de sermos felizes!”

Com muita transa, muito tesão pela vida e disposição para a luta, o I Marapiauí deixa na boca da gente um gostinho de quero mais. Porque coisa boa é assim. A gente quer e precisa repetir, para se deleitar novamente e gozar da felicidade mais um pouquinho! Que venham os próximos encontros!

Obrigada, Jesus e Célia!

Mais alguns registros do encontro. Todas as fotos foram feitas por Marlene Teixeira e são de uso coletivo.


Debora Barcellos

Debora Barcellos é mãe de duas crianças, aliada do putativismo e candidata ao doutoramento em Antropologia pela Universidade de Brasília.
No trabalho de pesquisa atual se interessa pelas dinâmicas familiares entre trabalhadoras e trabalhadores sexuais, com foco nas maternidades.
Mineira do quadrilátero ferrífero e habitante do Vale do Jequitinhonha.

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