O trabalho sexual começou a se tornar “socialmente aceitável”? Esta mulher pensa que sim

Melissa Gira Grant, uma prostituta-tornada-jornalista e escritora, escreveu um livro chamando suas ex-colegas à luta por direitos trabalhistas. Nisha Lilia Diu encontrou-a e foi persuadida.

Por Nisha Lilia Diu para The Telegraph
Tradução de Monique Prada

Melissa Gira Grant pode se mostrar bastante assustadora. Na sala de reuniões do sótão de teto baixo de seus editores de Londres, a chuva borrando a vista para as ruas do Soho, o punho bate na mesa. Cada um dos entrevistadores com quem ela falou sobre seu novo livro, Playing the Whore, perguntou a ela como se tornou profissional do sexo – e ela está com raiva disso.

“Por que você quer saber?”, ela questiona, seus olhos azuis gelados de raiva. “Por que isso é importante para você?”

Acho que as pessoas acham difícil de entender, eu digo. Tomar a decisão de vender sexo é um passo que um monte de gente não pode se imaginar tomando. Eu acho que as pessoas perguntam a partir de um desejo de entender.

“Eu acho que é um desejo de objetivar”, ela dispara de volta.

Desnecessário dizer que Playing the whore não é um livro de memórias. É uma chamada extremamente convincente sobre direitos laborais para as trabalhadoras sexuais e, como tal, contém apenas detalhes mais básicos da biografia de Gira Grant: ela cresceu em Boston e foi uma profissional do sexo há 10 anos. Ela trabalhava como garota webcam e no distrito da luz vermelha em North Beach, em San Francisco. Agora é um escritora em tempo integral.

O distrito da luz vermelha de North Beach, em San Francisco (Flickr).

Ela fez esse trabalho “por dinheiro”. Quando pergunto a ela o que leva mulheres a não vender sexo, ela responde como um tiro: “um outro emprego que elas prefiram”.

Gira Grant tem 36 anos e agora vive no Brooklyn. Ela é uma voz rara no debate deprimente e polarizado sobre as leis de prostituição. Ela resiste a ser encurralada, como ela diz em seu livro, “em qualquer dos lados, seja de exploradas ou o lado empoderado do palco.” (É por isso que nós queremos saber histórias de profissionais do sexo? Assim, podemos classificá-las como vítimas trágicas ou feministas heroínas?) Em vez disso, ela fala sobre tons de cinza.

“Há uma tendência para que as trabalhadoras do sexo sintam que só podem dizer coisas positivas sobre o trabalho sexual, porque qualquer coisa negativa que elas dizem é torcida contra elas.” Mas, diz ela, “talvez estejam acompanhando alguém a quem não gostem de estar acompanhando. Talvez elas estejam apenas fazendo isso por agora, porque é a melhor coisa que tem pela frente.”

Uma face socialmente aceitável do trabalho sexual está emergindo, diz ela. “Essa narrativa de ‘oh, eu adoro isso e é tão fantástico’… Eu acho que na medida em que você talhar essa narrativa e passar a ser vista como alguém que teve escolha e poder, então as pessoas vão dizer, ‘bem, então eu acho que posso apoiar isso’. Mas essas mesmas pessoas vão dizer coisas muito negativas sobre pessoas que trabalham nas ruas.”  Por que motivo ela pensa que isso acontece? “Classe. Raça” A visão de Gira Grant é que todos os profissionais do sexo devem ter o apoio, respeito e proteção da lei, independentemente de como e por que entraram na indústria.

Na Europa, as discussões sobre a prostituição estão sendo dominadas por uma única pergunta: devemos implementar o “modelo nórdico”? Este sistema descriminaliza a venda de sexo, mas faz com que a compra de sexo vire uma ofensa criminal. A Suécia adotou, em 1999, a Noruega e a Islândia seguiram o exemplo e uma série de países, incluindo o Reino Unido, está considerando seriamente isso (no momento, nossas leis permitem a compra e venda de sexo, mas criminalizam todas as atividades que o cercam).

Recentemente, passei algum tempo na Alemanha, onde a prostituição tem sido completamente legal desde 2002, cheguei à conclusão de que o modelo alemão, com seus mal regulados “mega-bordéis”, apps de escorts e leilões de virgens – para não falar de um aparato policial cerceado pela linha tênue entre “gerenciar” prostitutas e “explorá-las”, está permitindo mais dano do que o nórdico. Mas é a escolha entre uma rocha e um lugar duro.

O livro de Melissa Gira Grant.

“É uma espécie de ficção jurídica pensar que podemos criminalizar apenas parte de uma transação”, diz Gira Grant sobre modelo nórdico. “Na Suécia”, acrescenta ela, “trabalhadoras do sexo não são consideradas criminosas, mas elas não são consideradas trabalhadoras também. Assim, elas não são capazes de acessar os benefícios aos quais outras trabalhadoras tem acesso. Elas não são iguais na sociedade, porque estão participando de uma atividade criminosa, mesmo que elas próprios não sejam criminosas.

Algumas pessoas sentem que isso é como deveria ser: que a lei deve tomar uma posição moral contra a compra e venda de sexo. “Isso significa matar pessoas”, diz Gira Grant. “Para dizer ‘vamos proibir esse comportamento para expressar nosso desagrado moral para com isso’, também está se dizendo:’ nós aprovamos a violência que resultará da criminalização.”

Não demora muito para se perceber que as trabalhadoras do sexo que operam sob o modelo nórdico hesitarão em se reportar às autoridades, se isso significa colocar a sua única fonte de renda em risco. E isso significa que as pessoas que foram agredidas ou que queiram tratamento para dependência de drogas ou ajuda para encontrar outro emprego, deslizarão através das rachaduras.

Nos países em que os próprios profissionais do sexo são criminalizados, a indiferença para com o sofrimento pode ser impressionante. Gira Grant me fala sobre uma trabalhadora do sexo na Filadélfia, que foi atacada por um cliente em plena vista de um policial. O policial interveio e a levou para a delegacia de polícia, a seu pedido, para denunciar o seu agressor. “Então ele saiu porque não era sua delegacia. E a policial que na verdade trabalhava lá disse a ela: ‘você é a única que deveríamos estar prendendo por isto’. E eles se recusaram a aceitar sua denúncia. Seu agressor passou a assaltar outras pessoas da comunidade e vai agora a julgamento por assassinato.”

Pascha, em Colônia, é o maior bordel da Europa (Albrecht Fuchs).

No início deste ano eu falei com Chris Armitt, a liderança nacional da polícia sobre a prostituição para a Inglaterra e País de Gales. “Um indivíduo que brutalmente estupra alguém em uma esquina é alguém que está predisposto a agressões sexuais violentas”, disse ele. É um padrão bem estabelecido para pessoas que atacam as trabalhadoras do sexo, e continuarão a atacar outros membros da população. “Estes são os indivíduos de alto risco e precisamos tirá-los das ruas”, Armitt me disse.

Sua força foi pioneira no que se tornou conhecido como o “modelo de Merseyside”. Em vez de prender as trabalhadoras do sexo, a polícia mantém a comunicação com elas para que possam ser rapidamente alertados para cafetões violentos, apostadores e traficantes sexuais. Quando as trabalhadoras do sexo são atacadas, a polícia de Merseyside trata o assunto como um crime de ódio e persegue o agressor com determinação.

Os defensores do modelo nórdico falam sobre o efeito normativo que tem sobre a sociedade, ao estabelecer a ideia de que a compra de sexo é algo errado. Eu coloquei para Gira Grant que o modelo Merseyside de acusação feroz contra violência e tráfico carrega uma mensagem igualmente poderosa sobre o que a sociedade julga inaceitável.

“Sim”, ela concorda, “mas é um desafio quando a polícia é fonte de muito dessa violência. Se a experiência da polícia com as trabalhadoras do sexo é de assédio, ela vai ter que lutar – e muito – para transformar as relações em torno disso”.

E por que, sendo o trabalho sexual algo tão difícil e perigoso, as pessoas ainda optam por fazê-lo?

“Normalmente, não é uma escolha entre o trabalho sexual e algum outro grande trabalho”, diz Gira Grant. “Os tipos de trabalho que muitas profissionais do sexo realizaram antes de fazer o trabalho sexual são empregos onde não se têm trabalho o tempo inteiro, você tem que manter um horário flexível, em que você está vivendo em um abrigo porque você não ganha o suficiente para se sustentar. Ou talvez seja alguém que está doente e não pode trabalhar mais. Ou o trabalho sexual é a primeira vez em que elas não tiveram nenhum controlador sobre as horas que trabalham. E talvez elas queiram isso – para realmente ter uma vida fora do trabalho.”

O trabalho sexual parece ser um trabalho horrível para mim. Pessoalmente eu não amo a ideia de pessoas comprando e vendendo sexo. Mas o que acontece entre adultos não é realmente da minha conta. E, além disso, não podemos escamotear a pobreza (sempre haverá pessoas que preferem vender sexo do que morrer de fome) e não podemos fugir da natureza humana (que sempre haverá pessoas que estão sós ou são preguiçosas, inadequadas ou parafílicas o suficiente para comprá-lo).

A questão é: o que vamos fazer sobre isso?