“Nada assusta mais do que uma mulher trans negra com um diploma”

Caty Simon entrevista Monica Jones para a Tits and Sass.

Em maio de 2013, Monica Jones, trabalhadora sexual e ativista pelos direitos das mulheres trans, além de estudante de assistência social na Arizona State University, foi acusada de “manifestação de prostituição” em Phoenix, depois de aceitar uma carona de um policial disfarçado. Sua prisão detonou uma tempestade de protestos contra o Projeto ROSE, um programa de afastamento das pessoas da prostituição por meio de detenções conduzido pela Escola de Serviço Social da ASU e pela polícia de Phoenix que utilizou detenções coletivas e transfobia naquelas prisões por prostituição; e a lei de “manifestação de prostituição”, potencialmente inconstitucional, sob a qual ela foi acusada. A ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis), o SWOP-Phoenix (Sex Workers Outreach Project) e outros ativistas pelas trabalhadoras sexuais e GLTB se solidarizaram com Jones à medida que ela ganhava atenção internacional ao contestar as acusações.

“A razão pela qual esta lei [sobre ‘manifestação da prostituição’] é tão injusta é porque ela dá à polícia a credibilidade de dizer quem é trabalhadora sexual e quem não é. Isso viola nossos direitos da Primeira Emenda [à Constituição dos EUA], o direito de andar na rua, o direito de expressão”, ela explicou. Desde sua prisão, Jones ganhou proeminência como ativista, foi entrevistada por dezenas de órgãos da mídia, encontrou-se com Laverne Cox e viajou à Austrália para falar em eventos públicos, tudo isso enquanto trabalhava para a conclusão de seu curso de serviço social.

Em novembro, Jones disse ao Best Practices Policy Project que o Projeto ROSE havia sido fechado, uma vitória crucial para o movimento no Arizona. E embora Jones tenha sido preliminarmente condenada, seu recurso em janeiro de 2014 foi bem sucedido e a condenação foi anulada. Falamos com ela logo antes de a decisão ser anunciada; segue-se uma versão resumida da entrevista, conduzida via videochat.

Caty Simon: Recentemente, sua condenação foi anulada. O que isso significa para você? O que vem em seguida?

Monica Jones: Recebi um telefonema do tribunal ontem à noite, dizendo que os procuradores não vão me julgar novamente. Portanto, agora mesmo estamos tentando ver se há ou não indicação de má conduta [que impediria a reapresentação da acusação] e se isso terá algum efeito no meu processo de desafio à constitucionalidade da lei.

CS: Portanto, seu objetivo final, com sua equipe legal, é usar o caso para revogar essa lei de uma vez. Como pessoas de outros estados podem ajudar a combater a lei e ajudar em sua campanha contra ela?

MJ: Acho que há muitas outras leis como essa neste país, como “vadiagem com intenção de prostituição”, e o uso de camisinhas como evidência. Acho que elas precisam travar suas próprias lutas em suas próprias cidades. Porque quando nos livrarmos dessas leis, isso basicamente nos livra do sexismo e da discriminação e da transfobia. E tira o poder dos policiais e do sistema judiciário, de dizer quem é trabalhadora sexual e quem não é.

monicajones2CS: Uma história que trouxe você para o noticiário nos últimos meses foi a sua deportação da Austrália, no aeroporto de Sydney. Pelo que eu li, durante seu encontro com a imigração. você foi pressionada pelos produtores do reality show Border Security a ter seu caso filmado. Quando você recusou, depois de ter concordado inicialmente – após perceber que eles planejavam sensacionalizar a história -, funcionários da alfândega passaram a tratar você muito mais severamente. Você pode nos dizer mais sobre o que aconteceu lá?

MJ: O que aconteceu foi que eu fui legalmente restringida ao voltar para meus recursos. Eu estava fazendo um estágio na Austrália com a Scarlet Alliance, uma grande organização das trabalhadoras sexuais de lá, e ia sair de lá para voltar [aos EUA] para assuntos do meu processo, para voltar à Austrália depois de três dias. Então, quando cheguei ao aeroporto para partir, para vir aos EUA, eles examinaram todas as minhas coisas. revistaram minha bolsa, meu telefone, minha mala, revistaram tudo. Eu tinha tudo sobre meu processo ali, em uma pasta. Eles levaram para uma sala dos fundos e examinaram tudo aquilo. Disseram “OK, você pode ir.”. Então eu pensei OK, eu posso ir.

E quando voltei dos EUA, eles me puxaram de lado e me levaram para essa sala, onde me perguntaram “Você quer ser filmada por essa equipe?”, e o produtor do programa disse “Nós achamos que a sua história é interessante.” O que – eu nunca disse nada a eles sobre minha história, eles não sabem nada sobre minha história! Então eu pensei: como é que ele sabem que minha história é interessante. E então eles ficaram me fazendo perguntas.

Depois de ser pressionada, concordei em ser filmada. Mas no meio daquilo, eu disse “Eu não me sinto bem com isso. Acho que é suspeito.” E assim que eu disse isso, eles foram muito severos comigo. “Oh, você fez isso, você violou nosso visto…”

Se eu violei meu visto, eles deveriam ter me informado quando me liberaram originalmente para sair do país! Mais tarde, o juiz perguntou aos funcionários da imigração “Por que vocês a liberaram quando ela saiu do país?” Então eles disseram que eu era uma ameaça à segurança nacional. Por isso, acho que ativismo é uma ameaça à segurança da Austrália…

CS: O que você pode nos dizer sobre o plano de sua equipe legal para intimar a Seven Network, canal que veicula aquele reality show, o Border Security, que te assediou no escritório da imigração?

MJ: O engraçado é que o que eu obtive, os documentos, tudo está censurado, tudo está apagado ou branqueado por cima. Tudo o que os incriminaria, eles removeram. E nós sabemos que o governo é que pode fazer isso. Então, basicamente, eu não sei. Só espero que quando eu tiver meu dia no tribunal, o juiz entenda isso.

CS: Você acha que existe algum tipo de acordo “você coça minhas costas, eu coço as suas” entre funcionários da imigração australiana e esse reality show, já que eles sabiam que a encontrariam lá e sabiam sobre sua “história” a ponto de dizer que ela interessante? Isso é absurdo.

MJ: Acho que existe. Quando um governo está trabalhando com um reality show… isso nunca é uma boa indicação. E quando eles fazem propaganda para a segurança de fronteiras e a imigração… isso faz crescer a boa e velha publicidade. E o que traz mais publicidade do que a chegada de uma mulher trans afro-americana? Então, eu acho que isso foi parte de um acordo deles sobre mim: “Essa pessoa é interessante, sabemos que ela está voltando, podemos fazer essa coisa toda e mandá-la de volta para os EUA.”

Mas eles foderam com a pessoa errada, e eu não aceitaria isso quietinha.

monicajones3CS: Você passou o ano todo sendo entrevistada por um órgão de mídia depois do outro. E sua objeção a ter sua história filmada por esse reality show foi a de que você sabia que eles iriam sensacionalizá-la. O que você aprendeu sobre o tipo de truque que a mídia usa para sensacionalizar histórias sobre mulheres trans? O que você pode dizer a outras mulheres trans que sejam entrevistadas, sobre como elas podem se proteger nessas situações?

MJ: Acho que com a mídia é muito arriscado. A única razão pela qual eles tentam me entrevistar é porque algo de ruim aconteceu, ou é algo como o Sabor do Mês. Gosto de pensar sobre as entrevistas de Janet Mock com Katie Couric e com Piers Morgan, nas quais eles usaram questões trans de modo sensacionalista: “Oh, você fez a sua cirurgia?” “Você nasceu menino?” “Quando você veio a saber que é uma mulher?”

Diga apenas “Não é da sua conta”, ou diga “A questão não é essa; isso é muito pessoal e você não tem direito a isso. A questão é…” Simplesmente continue e fale sobre as questões, como “A questão é entender os limites das mulheres trans, respeitar as mulheres trans.” Então, redirecionar a pergunta de uma maneira positiva, e eu acho que essa é a melhor maneira de fazer isso, e acho que é uma maneira de usar a curiosidade deles sobre nós para colocar nossas questões em foco, como no caso das incontáveis mulheres trans de cor que foram assassinadas no começo do ano.

CS: Certo, então a maneira como Janet Mock confrontou Piers Morgan, porque ele não estava fazendo perguntas sobre o livro dela – ele estava fazendo perguntas invasivas sobre o corpo dela – e a maneira como você navegou em muitas outras entrevistas, para trazer o foco de volta para os direitos das trabalhadoras sexuais e das mulheres trans, ao invés de permitir que eles, como você disse, a transformassem em Sabor do Mês e questionassem seu gênero. Você mesma enfrentou muita transfobia ao longo do seu processo. The Advocate descreveu seus encontros com a polícia, depois de sua detenção inicial por “manifestação”, como ter sido detida por “andar enquanto trans”. No ano que se passou depois de você ser irregularmente presa, como você mencionou, muitas mulheres trans negras foram mortas, as mais recentes foram Lamia Beard, Ty Underwood e Ms. Edwards. Muitas dessas mulheres tiveram seus gêneros mal representados pela mídia que relatou seus assassinatos. O que o movimento pelos direitos das trabalhadoras sexuais pode fazer para ajudar mulheres trans negras a lutar por seus direitos e sua segurança?

MJ: Acho que apenas ser aliadas, e levantar essas questões, lidar com essas questões: por que mulheres trans entram no trabalho sexual. Apenas dizer, basicamente, que há vidas aí. Compartilhar constantemente nossas historias, como Tits and Sass, como vocês; comecem a escrever nossas histórias, comecem a escrever sobre essas questões, sobre essa epidemia de assassinatos de mulheres trans de cor. Se permitirmos uma maneira para as mulheres trans de cor terem suas vozes ouvidas, acho que isso vai ajudar.

CS: Certo. Permitir uma plataforma para que mulheres trans falem, já que suas vozes frequentemente são abafadas ou ignoradas, isso soa como algo que pode ser um bom começo.

Mas a outra boa notícia que você recebeu recentemente foi a descontinuidade do Projeto ROSE, em novembro. O que podemos aprender, como ativistas, com a derrota do Projeto ROSE? O que você a SWOP-Phoenix fizeram certo aí – e a ACLU e todas as outras organizações envolvidas na campanha contra o Projeto ROSE – e como podemos repetir esse sucesso em outros lugares?

monicajones4MJ: Acho que a maior coisa que podemos fazer é o que acabamos de fazer no meu caso – ele começou pequeno, começou com o Tits and Sass, começou com o Best Practices Policy. Apenas continuamos a contar a história e a falar sobre como aquele programa é falho. A partir daí, virou notícia nacional!

Temos que começar pequenos e trabalhar para crescer, e não desistir, e simplesmente continuar. Porque sabemos que esses programas são falhos, sabemos que eles não funcionam. Apenas, basicamente, ir lá e protestar e chamar a atenção nacional para isso. Mesmo que as equipes de notícias estejam lá só para ver o programa, para ver oh, como esse programa é bom, então você leva manifestantes até lá, e você sabe que eles são do SWOP-Phoenix e outras organizações, e você diz OK, há uma linha clara aí. Acho que deixar que as trabalhadoras sexuais falem por si mesmas e permitir que nossas vozes sejam ouvidas seria a melhor maneira de combater esses programas de afastamento da prostituição como o Projeto ROSE.

CS: Você ainda está a caminho da conclusão de seu curso de serviço social.

MJ: Sim… Meu Deus! (risadas)

CS: Não posso imaginar como você conseguiu manter seu trabalho de escola, realmente, com tudo isso acontecendo por trás. Em sua declaração sobre o fechamento do Projeto ROSE, você disse que “usar táticas de coerção, como aquelas que são centrais no Projeto ROSE, contraria tudo aquilo pelo que o serviço social se posiciona. Supõe-se que assistentes sociais devam defender a justiça social e o livre arbítrio.”

Quando você concluir a escola de serviço social, você pretende trabalhar por aqueles ideiais de justiça social e livre arbítrio, como assistente social? O que os assistentes sociais podem fazer para ajudar as mulheres trans e as trabalhadoras sexuais?

MJ: Vou manter meu trabalho concentrado em torno de questões trans e de trabalho sexual. A assistência social permitiu que eu tivesse a educação e o diploma a me apoiar. Porque, como minha amiga na Austrália disse, “O que é mais perigoso do que uma mulher trans afro-americana? Uma mulher trans afro-americana com educação.” Posso falar sobre questões trans e questões das trabalhadoras sexuais, e não ter um diploma – e isso soa bem; mas com um diploma, há validade por trás disso.

Como assistente social, você tem que ouvir o seu cliente e lidar com as questões que o seu cliente precisa. Se o seu cliente vem apenas em busca de recursos para ter acesso a camisinhas e cuidados de saúde, ajude-o com isso. Não fique sentada lá dizendo “Como você é trabalhadora sexual, como você é trans, as questões são estas.” Não! A questão é o sistema fodido dentro do qual vivemos, o sistema de bem estar social, o governo. Como assistentes sociais, nós fazemos uma ponte entre o sistema e as comunidades a que servimos. O simples fato de ser mais enraizado culturalmente, na compreensão da comunidade à qual você está tentando servir, torna você uma assistente social mais eficaz e torna seus clientes mais receptivos aos seus serviços.

CS: Diferentemente do Projeto ROSE, que implicitamente culpava o indivíduo – “Há algo de errado com esta pessoa, porque ela se voltou para o trabalho sexual” – você está jogando a culpa de volta para um sistema que dá poucas opções econômicas às pessoas. Você está dizendo, bem como o movimento de redução de danos diz: “Encontre o cliente onde ele estiver, encontre as pessoas onde elas estiverem e veja do que as pessoas precisam, ao invés de impor a elas o que você acha que elas precisam”.

Você teve tantas oportunidades para falar para audiências em todo o mundo, por meio da cobertura da mídia sobre o seu processo, neste ano. Mas o que você diria para uma audiência formada principalmente por trabalhadoras sexuais, como nós? O que você sente que aprendeu com seu caso, e que você pode nos dizer?

MJ: Nunca se curve, nunca reaja à prisão se curvando. Continue lutando. O que você está fazendo, não há nada de errado com isso. A única coisa errada são as leis fodidas que policiam os corpos das pessoas. Acho que vocês são corajosas. Acho que vocês são fortes. Acho que a questão não são as trabalhadoras sexuais. Acho que é o mundo, e os indivíduos que dizem que o trabalho sexual é errado.

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A repórter Caty Simon se define assim: “Sou uma acompanhante de cidade pequena e ativista, com interesses puramente ‘acadêmicos’ em drogas e loucura (porque políticas de identidade são tão passé). Tenho trabalhado intermitentemente como acompanhante por mais de uma década e ainda não cheguei ao ponto de esgotamento como trabalhadora sexual. Se você quer me conhecer melhor, visite meu tumblr. Ultimamente, tenho estado ocupada principalmente em coeditar aqui na Tits and Sass e em escrever artigos ocasionais para a Emily Books, uma e-livraria feminista vanguardista.”

A foto principal é de PJ Starr; as demais são da página de Monica Jones no facebook.

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