O que sobra?
Desde que me tornei garota de programa assumida nas redes sociais, mensalmente recebo convites para participar de pesquisas acadêmicas. Acredito que a dificuldade de chegar até as trabalhadoras sexuais no mundo real, somada à facilidade de contato que as redes sociais proporcionam, são os motivos de tantos convites.
Muito interessante ser objeto de estudo de um pesquisador. As perguntas sempre me fazem refletir coisas que eu ainda não tinha pensando. E quando dou as minhas respostas para essas pessoas, também dou a mim mesma. Algumas palavras que saem da minha boca são surpresas para mim. As coisas soam diferentes da boca pra fora. As vezes minhas respostas também trazem pensamentos que eu ainda não tinha refletido sobre. Umas dessas me marcou.
Certa vez, em uma dessas chamadas de vídeo, com uma dupla feminina de pesquisadoras, chegando a quase uma hora e meia da entrevista, depois de falar sobre tudo o que vivo, principalmente sobre os estigmas que essa profissão carrega, uma delas fez a seguinte pergunta: “E depois de passar por todos esses estigmas e dificuldades em ser uma garota de programa assumida, o que sobra?” Antes que eu pudesse pensar minha boca abriu e uma única palavra saiu: “LIBERDADE”.
Para complementar minha resposta outras palavras foram saindo. Disse a elas o quanto era libertador não ter mais medo de ser chamada de puta, afinal hoje sou uma. O quanto eu tenho liberdade com meu corpo e vivo minha sexualidade sem culpa. Como eu posso viver meu sexo sem me afetar pelos julgamentos, afinal, qual maior julgamento social para uma mulher do que ser considerada “puta”? Depois que essa barreira foi ultrapassada e mesmo com tanto estigma por conta do trabalho, eu finalmente estava livre das normas sociais que amarram os indivíduos do sexo feminino.
As mulheres são ensinadas a restringir suas vidas, sua sexualidade, seu gozo, para caber na norma de “mulher de respeito”. Eu simplesmente não precisava mais disso. Quebrando essa norma social da “mulher de respeito”, eu me tornei uma mulher livre. E sendo livre, mesmo com o fardo do estigma, prefiro mil vezes estar desse lado do que voltar a me prender para agradar a sociedade. O que sobra, para mim, é ser livre.

Dileta é trabalhadora sexual, estudante de ciências sociais na Unesp, filiada à Anprosex, ativista e criadora de conteúdo, mãe de pet, virginiana, filha da Lusia.

