Duas horas de conversa com um incel
Esses dias me chamou um cara, eu não podia atender mas estava com tempo, ele mencionou dez anos sem sexo por ser incel e eu sou movida pela curiosidade sobre as pessoas e suas particularidades. Conversamos muito a respeito, ele falou sobre suas percepções, eu falei sobre as minhas, retruquei algumas várias ideias e fui percebendo o mesmo que eu vejo em todo masculinista: ele não se amava nem um pouco.

Muita arrogância minha determinar isso sobre um desconhecido? Talvez, mas acredito muito que uma pessoa que não se conhece é incapaz de se amar. E como eu sei que ele não se conhece? Fiz uma pergunta simples: quem é você?
Quase duas horas de conversa e ele tinha me dito tantos rótulos: niilista, ateu, incel, mgtow, black pill, antinatalista… diante da pergunta, descreveu o personagem de uma série, o personagem de um filme, mas sobre ele mesmo, nada!
Essa ideia de “despertar da Matrix” deixou o cara perdido em tanta filosofia e teoria que o deixou dez anos sem se relacionar com mulheres. Não é superestimando o sexo, mas não acho uma década um tempo saudável sem contato assim, chamam de “celibatário involuntário” mas eles não só se voluntariam como se dedicam ao máximo para manter essa distância, construindo diariamente um muro com referências que colaborem com sua existência “sem riscos”. Uma zona de conforto enorme mas frágil, frágil…
É isso que me pega nesses tipos de conteúdos e por isso que eu me coloco tão contra esses ideais, eles servem de material na construção desses muros e o ressentimento se torna quase palpável quando a gente tem contato com eles, isso porque eu sou bem compreensiva, a maioria não ficaria nem dez minutos perto, parece um repelente.

Aline Lopez é feminista, putativista e dona do próprio nariz.

