Juntanza Puteril: coletivo colombiano lança manifesto pela união da categoria
Em 1º de março, o coletivo colombiano de trabalhadoras sexuais Juntanza Puteril publicou um manifesto poderoso de reafirmação da identidade da categoria e um chamamento pela união em defesa de seus direitos. Segue-se a tradução:
A palavra “puta” carrega consigo, há séculos, um veneno colonial, patriarcal e classista: um insulto que marca mulheres que transgridem o controle sobre sua sexualidade, que a usam livremente, que a transformam em fonte de prazer e sustento. Deriva do estigma que divide o “bom” (submisso, casto, reprodutivo) do “mau” (autônomo, erótico, economicamente motivado por seus desejos). Esse contexto simbólico da prostituição colonial — onde os corpos de mulheres racializadas e pobres eram mercadoria para o colonizador, o cafetão e o Estado — é precisamente o que precisa ser desmantelado e redefinido.
Ressignificar a palavra “puta” não significa branquear ou romantizar nada: significa pegar a arma que nos foi lançada e usá-la como bandeira. Em outras palavras: “Sim, eu sou uma puta, e essa puta que eles tanto odeiam é livre, soberana sobre seu corpo, seus desejos e suas finanças. Não sou uma vítima por omissão, não sou uma escrava por definição. Sou um sujeito político que exige plenos direitos.”
E essa linha política é clara: a regularização do trabalho sexual como trabalho digno, não como crime, nem como ‘escravidão sexual’, nem como ‘violência inerente’.”
Regularização significa:
– Descriminalização total do trabalho sexual (independente ou filiado a sindicatos), sem criminalizar a troca consensual de sexo por dinheiro entre adultos.
– Reconhecimento trabalhista: acesso a previdência social, saúde, aposentadoria, contratos, sindicatos de profissionais do sexo e proteção contra exploração (prostituição forçada, tráfico de pessoas, coerção).
– Fim da putafobia patrocinada pelo Estado: chega de batidas policiais, extorsão e estigma em saúde, moradia, educação ou imigração. Chega do uso do insulto “puta” para justificar a violência.
– Autonomia e voz própria: profissionais do sexo organizadas decidindo as regras, e não abolicionistas ou moralistas falando por nós.
Na América Latina, as trabalhadoras do sexo já estão fazendo isso: a Marcha das Vadias, a Coalizão Trabalhista das Trabalhadoras do Sexo (CLaP) no México, a AMMAR na Argentina, a OTRAS na Espanha, a RedTraSex em diversos países e, aqui na Colômbia, coletivos que há anos gritam “vadia com direitos” e lutam por decisões como a do Tribunal Constitucional T-736, que reconhece a discriminação histórica e a necessidade de proteção especial.
Puta sim, puta com direitos!
Puta: não é mais o insulto colonial que nos envergonhava, que nos silenciava, que nos transformava na escória do patriarcado.
Hoje, PUTA é identidade política, é raiva organizada, é autonomia sexual e econômica.
Reivindicamos a palavra que usaram para nos controlar: transformamos em orgulho, força, irmandade.
Não queremos caridade, nem salvação abolicionista.
Queremos a legalização agora:
– O trabalho sexual reconhecido como trabalho.
– Direitos trabalhistas, sindicais e humanos plenos.
– Fim da perseguição policial e do estigma estatal.
– Nós decidimos nossas próprias vidas, não o Estado ou os cafetões moralistas.
Porque uma puta não é uma vítima eterna: uma puta é uma guerreira, uma puta é livre, uma puta é soberana.
E juntas, putas organizadas, somos irrefreáveis.
Puta com direitos, puta em luta, puta revolucionária!
E você? De que lado está quando nos chamam de putas?
Do lado da liberdade ou do lado do controle?
Saltos firmes, saltos afiados, fúria digna.
Por uma aliança global das putas, caralho!

