Trabalhadoras sexuais de Amsterdã: as indesejadas vítimas da gentrificação

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O plano do governo holandês de “limpar” o Red Light District de Amsterdã e livrar a área do crime organizado forçou o encerramento de muitas janelas de bordel, deslocando as profissionais do sexo e colaborando para valorizar os imóveis da região.

Por Beulah Maud Devaney para The Guardian  
Tradução: Monique Prada

Foto: Picture Colour Library/Alamy

Um rebanho de unicórnios cor de rosa apareceu na janela, agarrado a seus telefones e discutindo sobre a melhor maneira de chegar a Leidseplein. Está chovendo lá fora, e os trajes de pelúcia dos unicórnios estão encharcados e enlameados nos tornozelos. As despedidas de solteiro são algo comum de se ver em torno do Oude Kerk, o coração do Red Light District de Amsterdã. Outro grupo aparece, vestindo t-shirts com os dizeres “Dave’s Lash-On: Only Pints and Strippers”. Eles também se encaram.

Este escrutínio é irritante mas compreensível: estou sentada na janela do Centro de Informação sobre Prostituição de Amsterdã (PIC). A apenas duas portas de distância, mulheres em roupas mínimas se exibem nas janelas em busca de clientes. O PIC é um café escuro e quente, repleto de artigos históricos sobre a prostituição, ao lado de brilhantes decorações de Natal. Como o próprio Red Light District, é uma combinação de campo sugestivo e comercialismo irritante. Criado pela ex-trabalhadora sexual e escritora Mariska Majoor como um recurso de informação, atração turística e loja de bolos, é o tipo de lugar onde você pode pedir uma terceira fatia de torta de maçã e se informar sobre a taxa local para um período de sexo oral no mesmo suspiro.

Por quanto tempo ainda resistirá esta abordagem do sexo pago em Amsterdã, é algo que deixa Majoor realmente preocupada. Um plano de governo chamado Projeto 1012 estabeleceu a meta de “limpar” o Red Light District e desde que começou a ser levado adiante, em 2007, estima-se que 126 janelas foram fechadas, o que levou a protestos de donos de bordéis, uma marcha na prefeitura e acusações de que políticos usam o comércio sexual como bode expiatório para justificar a desapropriação de espaços para favorecer a especulação imobiliária flagrante. Houve uma trégua para aqueles que protestaram quando foi anunciado, no final de 2015, que o Conselho deixaria de fechar as vitrines. Mas para algumas das residentes do Red Light District, o dano já havia sido feito.

Nomeado com o código postal do distrito, o Projeto 1012 pretende substituir as janelas de bordéis por boutiques de luxo, cafés exclusivos e projetos artísticos. A idéia é torná-lo menos atraente para o crime organizado e trazer uma classe superior de turistas (a partir da suposição um pouco questionável de que pessoas ricas não visitam trabalhadoras sexuais). Dois novos empreendimentos, a estação de rádio Red Light e o Museu Red Light Secrets, são parte do avanço deste projeto assustador, que soa bem para os ouvidos da imprensa nacional holandesa. Mas muitas das habitantes locais ainda precisam ser convencidos.

Foto: Beulah Devaney for the Guardian

“Não é tão fácil gentrificar uma área”, diz Majoor. “Todos os antigos moradores devem ir embora e pessoas novas e sofisticadas precisam ser atraídas. [O governo] sabia que isso não seria fácil de fazer em uma área tão famosa e complicada. Mas o tráfico de seres humanos e o crime organizado são coisas que ninguém quer – então, o governo foca o debate nisso “.

Quando o Projeto 1012 foi anunciado, rapidamente ficou claro que muitas pessoas se beneficiariam disso – exceto as trabalhadoras sexuais. Sob a justificativa de combater o crime, o governo forçou os proprietários de bordéis a vender seus arrendamentos neste espaço extremamente valioso. (Todos os terrenos em Amsterdã são de propriedade do governo e arrendados a proprietários.) Embora não exista dúvida de que alguns dos proprietários de bordéis estivessem envolvidos em atividades ilegais – acreditava-se que o Red Light District era controlado por crime organizado – o Projeto 1012 recompensaria a todos, empresários legítimos e criminosos suspeitos, com uma série de indenizações multimilionárias.

Não há dados públicos disponíveis sobre o quanto o governo pagou por edifícios particulares, nem o montante gasto para subsidiar os novos negócios que tomariam o lugar dos bordéis desocupados. Para justificar a despesa, Joris Bokhove, coordenador do Projeto 1012, disse: “Procuramos apoiar os jovens empresários tanto quanto possível, embora nossos recursos sejam limitados. Em alguns casos, conseguimos subsidiar startups, e os parceiros imobiliários estão dispostos a baixar o aluguel pelo período inicial. Conectamos empreendedores uns com os outros para incentivar novas parcerias e envolvê-las ativamente no desenvolvimento da vizinhança “.

Foto: Robin van Lonkhuijsen/EPA

As únicas pessoas que não receberam terras, dinheiro ou novas oportunidades foram as mulheres que trabalhavam nas vitrines – às quais a própria iniciativa de combate ao tráfico do Projeto 1012 deveria beneficiar. Embora tenha havido inúmeros processos contra traficantes de pessoas em torno de Amsterdã, apenas uma dúzia ou mais caíram no âmbito do projeto, e mais de 100 vitrines foram fechadas, o que sugere que a repressão ao crime ou o interesse na segurança das trabalhadoras sexuais tenha sido apenas uma desculpa conveniente.

A liquidação criou ondas de confusão através do Red Light District. Os donos dos bordéis começaram a se preocupar que, se não os vendessem imediatamente, seus negócios seriam encerrados à força em uma data posterior. A dúvida sobre quem venderia rapidamente e quem aguentaria um pouco mais se tornava grande, destruindo uma comunidade muito unida que, até a década de 1990, era dirigida principalmente por pequenos empresários locais. Esta comunidade resiliente já fora testada há algumas décadas, quando vários proprietários de bordéis da Europa Oriental (o grupo mais frequentemente acusado de tráfico) se mudaram para a área.

|Algumas das trabalhadoras sexuais holandesas com quem falei citou suas concorrentes da Europa Oriental como o verdadeiro motivo do Projeto 1012. Apesar dessas acusações, é claro que o Projeto 1012 não era apenas alvo de empresários estrangeiros; os empresários holandeses também foram abordados pelo governo e pressionados a vender seus imóveis.

Majoor não condena os empresários que venderam seus bordéis. “Quando você obtém uma enorme oferta de dinheiro e você está inseguro sobre o futuro do seu negócio, é muito tentador dizer sim.” Ela acredita, no entanto, que todos subestimaram a importância das vitrines. “As trabalhadoras sexuais deveriam ter mais voz nesta discussão”, diz ela. “O Red Light District é mais do que sexo, drogas e rock’n’roll, mas todo o bairro é apoiado pelas vitrines dos bordéis”.

Foto: Beulah Devaney para the Guardian

Em abril de 2015, mais de 200 profissionais do sexo, liderados pelo PIC e pelo PROUD, o sindicato holandês das trabalhadoras sexuais, marcharam pelo centro da cidade de Amsterdã para protestar contra a demonização da indústria do sexo e o fechamento das vitrines. O maior protesto da história holandesa chamou a atenção pública para a potencial desvantagem de gentrificar o Red Light District. Sentiu-se, diz Majoor, algo “como um retorno à solidariedade na área”.

“Fechar as vitrines torna mais difícil para as trabalhadoras sexuais encontrarem trabalho”, diz Felicia, uma trabalhadora sexual da Romênia que edita o popular blog Behind the Red Light District e trabalha nas vitrines em torno de Oude Kerk, a poucas portas do PIC . “Há muitas garotas à noite que já estão tendo que andar por aí, procurando trabalho, porque há mais garotas do que vitrines agora”.

Nem todas concordam que o Red Light District tem um senso de comunidade que vale a pena preservar. Dana (não é o seu verdadeiro nome) foi traficada da Bulgária para Amsterdã em 2008. Seis meses depois, ela escapou de seus captores, mas decidiu continuar trabalhando nas vitrines para poder enviar dinheiro para sua mãe e irmão mais novo. Nós nos encontramos em um café leve e arejado perto do rio Amstel, junto a moradores locais com suas pernas bronzeadas curtindo o sol.

“Como essas pessoas podem se preocupar com alguém como eu?”, pergunta Dana, gesticulando para os outros clientes, um dos quais nota e nos dá um olhar bastante incisivo. “Trabalhar nas vitrines é apenas um trabalho. As pessoas que vivem aqui não se preocupam com as prostitutas e não nos preocupamos com elas. Eles só nos valorizam porque trazemos dinheiro para a área. Mas não há comunidade aqui. A menos que você considere “comunidade” apenas conversar com outras prostitutas, porque ninguém mais vai falar com você “.

Apesar de não gostar dos moradores da área, Dana ainda apóia o esforço do PIC na campanha contra o Projeto 1012. Ela pode não gostar do Red Light District, mas trabalhar ali paga as despesas da mãe na Bulgária. Sem uma receita constante das vitrines dos bordéis, Dana se preocupa de que precise que trabalhar em seu próprio apartamento (o que violaria seu contrato de aluguel) ou se mudar para locais mais isolados, com menos clientes – e menos proteção contra a polícia.

Existe um ressentimento visível entre as trabalhadoras sexuais do Red Light District sobre o fato de que o governo tenha usado a questão do tráfico de seres humanos para comprar alguns dos edifícios mais valiosos da área. Mulheres como Dana, que foram traficadas, ficaram se perguntando por que os empresários que alegadamente as traficavam receberam recompensas maciças. Organizações holandesas que trabalham com as vítimas do tráfico humano condenaram o projeto por tornar as mulheres vulneráveis mais difíceis de se localizar. Enquanto isso, moradores como Majoor e Felicia estão observando uma área da qual elas gostam muito ser desmembrada e vendida, acabando com seu senso de comunidade.

Majoor pensa que os protestos vão parar a gentrificação? “Nós sempre teremos prostituição nas vitrines e teatros sexuais no Red Light District”, diz ela. “Permanecerá sendo um Red Light District, apenas menor. Eles querem manter a imagem de uma cidade emocionante e atraente … Mas menos assustadora para as pessoas elegantes que vêm aqui gastar muito dinheiro “.

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